20 de jul de 2011

Homenagem à Maria Chuteira, essa injustiçada

Por Xico Sá na Folha


 
Minha pátria é a pátria do meu uísque. Não a pátria em chuteiras, tio Nelson. Portanto não teria como não secar o Brasil da CBF ontem.
Aproveitamos o ensejo do triunfo paraguaio para homenagear, em nome de Larissa Riquelme, a musa da torcida Guarany, todas as marias chuteiras do mundo.
Sim, essa pobre moça, normalmente execrada no mundo do futebol. A Maria Chuteira suporta, fiel e resignada, o banco de reservas, ela não nasceu para matriz, amar demais passou a ser o seu defeito, mesmo sendo apenas a filial.
Mais importante do que qualquer camisa 12, ela não treina, não joga, mas é quem salva as concentrações, os Carandirus ludopédicos, do tédio e da miséria humana, reanimando o boleiro para o clássico.
É ela quem diz “xô má fase, xô uruca”, é na Maria Chuteira que estão os poderes.
A Maria Chuteira está para o atacante em jejum como São Pedro, padroeiro dos pescadores, para os Santiagos (vide O Velho e o Mar) que não veem há tempos um grande peixe na rede. Ela é a Iemanjá dos gramados.
Ninguém beija aliança ou faz o coraçãozinho na mão (como o Pato devoto da sua noiva gazela) para oferecer o gol à nobre moça dos amores clandestinos.
Nem quando nasce o seu filho por fora, o atacante faz o gesto inventado pelo Bebeto na Copa de 94 -o nana neném para as câmeras é exclusivo da família oficial.
Pobre moça dos afetos paralelos, és a Maria Madalena do mundo da bola.
Meu glorioso Santo Antônio, protegei a Maria Chuteira, ela também é filha de Deus.

Tudo bem, moralistas a julgam oportunista, perdoai, eles não sabem o que dizem.
Não sabem o peso de ser a outra permanentemente. Por toda uma vida.
Boleiro é mais moralista ainda, separa mulher para casar de mulher para o recreativo social clube. Treino é treino, jogo é jogo, vale a máxima do Didi, sempre, ô raça, como blasfemaria o Tutty Vasques.
De todas as Marias, a Maria Chuteira é a mais perseguida e folclorizada. Nem a Maria Gasolina sofre tanto na encruzilhada pseudomoral.
A Maria Claquete (cinema), a Maria Ervas Finas (chef de cozinha), a Maria Picape (DJ) e tantas outras usufruem sem preconceitos da admiração pelos seus artistas.
A Maria Teclado, nem se fala, ama legitimamente escritores e ainda ganha o status de musa. A groupie de astro de rock ou de qualquer garoto de banda, nossa, no problem, amor livre sem os beques morais da sociedade.
Maria Chuteira não, pobre moça.
Ela chega cedo ao CT, acompanha a chatice dos treinos táticos, aguenta os professores Pardais e seus 3-3-4, seus 3-5-2 noves fora nada, espera os cobradores de falta chutarem contra barreiras imaginárias…
Sim, Maria Chuteira, uma heroína. E imagine aguentar papo de boleiro nas oiças? Se homem normal já mente à beça, imagine um “migué” ludopédico no juízo!
Sorte é que, enquanto o perna de pau está se achando, a nossa heroína já está fazendo seu teste de DNA na esquina. Bem feito.

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