22 de jul de 2011

Governador do DEM e aliados massacram professores de Santa Catarina

Por Elaine Tavares no Viomundo
A cena apareceu, épica. Uma mulher, já de certa idade, rosto vincado, roupas simples, acocorada num canto da Assembléia Legislativa de  Santa Catarina. Chorava. As lágrimas correndo soltas pela cara vermelha e inchada. Num átimo, a câmera captou seu olhar. Era de uma tristeza  profunda, infinita, um desespero, uma desesperança, um vazio. Ali, na casa do povo, a professora compreendia que o que menos vale é a vontade das gentes. Acabava de passar no legislativo estadual o projeto do governador  Raimundo Colombo (DEM-SC), que vai contra todas as propostas defendidas pelos trabalhadores ao longo de dois meses de uma greve fortíssima.
Um ato de força. A deputada Angela Albino chorava junto com os professores, os demais sete deputados que votaram contra – a favor dos trabalhadores  – estavam consternados e, até certo pontonvergonhados por seus colegas. Mas, esses, os demais, os 28 que votaram com o governo, não se escondiam. Sob os holofotes das câmeras davam entrevistas, caras lavadas, dizendo que haviam feito o que era certo.
Puro cinismo. Na verdade o que aconteceu na Assembléia Legislativa foi o  que sempre acontece quando a truculência do poder se faz soberana.  Atropelando todos os ritos da democracia, o projeto do governador sequer passou por comissões, foi direto ao plenário. Foi um massacre. Porque é assim que é o legislativo nos países capitalistas, ditos “países livres e democráticos“. Os que lá estão não representam o povo, representam interesses de pequenos grupos, muito poderosos. São eleitos com o dinheiro destes grupos. Aquela multidão que esperava ali fora – mais de três mil professores – não era nada para os 28 deputados bem vestidos que ganham  mais de 20 mil por mês. Valor bem acima do que o piso que os professores tantos lutaram para ter, 1.800 reais. E estes senhores  estão se lixando para os professores estaduais porque certamente educam seus filhos em escolas particulares. Vitória, bradavam.

Mas os nobres parlamentares não ficaram contentes com isso. Ao verem os professores querendo se expressar, mandaram chamar a polícia de choque. E lá vieram os homens de preto com suas máscaras de gás,  escudos e armas. Carga pesada para confrontar aqueles que educam seus filhos. Triste cena de trabalhador contra trabalhador, enquanto os  representantes da elite se reflestelavam no ar condicionado. Por isso o olhar de desepero da professora, lá no canto, acocorada, quase perdida de  si mesma.
Ao vê-la assim, tão fragilizada na dor, assomou de imediato  em mim a lembrança da primeira professora, a mulher que mudou a minha vida. Foi ela quem me levou para a escola e abriu diante de mim o maravilhoso mundo do saber. Seu nome era Maria Helena. Naqueles dias de um longínquo 1965, ela era uma garota linda que morava do lado da nossa casa  em São Borja (RS). Normalista das boas, ela não ensinava nas escolas  privadas da cidade. Seu projeto de vida se constituiu ensinando nas  escolas da periferia, com as crianças mais empobrecidas.
Por morar ao lado da minha casa ela percebeu que eu, aos   cinco anos de idade, já sabia ler e escrever. Então, insistiu com minha mãe para que eu fosse para a escola, porque ela acreditava firmemente que  ali, naquele ambiente, era onde se formavam as cabeças pensantes, onde se descortinava o mundo. Imagino que ela fosse até meio freiriana (adepta de       Paulo Freire), por conta do seu modo de ensinar. Minha mãe relutou um  pouco. A escola ficava longe, no bairro do Passo, e eu era tão pequena.  Mas Maria Helena insistiu e venceu a batalha.
Assim, todas as tardes, mesmo nos mais aterradores dias do  inverno gaúcho eu saia de casa, de mãos dadas com a minha professora Maria Helena e íamos pegar o ônibus para o Passo. Numa cidade pequena como São  Borja, só os bem pobres andavam de ônibus e assim também já fui tomando contato com o povo trabalhador que ia fazer sua lida no bairro de maior  efervescência na cidade. O Passo era  a beira do rio Uruguai, onde  ficava a balsa para a travessia para a Argentina, os armazéns que vendiam  toda a sorte de produtos, as prostitutas, os mendigos, os pescadores, os  garotos sem famílias, as lavadeiras, enfim, uma multidão, entre trabalhadores e desvalidos. O Passo era um universo popular.
Maria Helena não me ensinou só a escrever, ela me ensinou a   ler o mundo, observando a realidade empobrecida do bairro, a luta  cotidiana dos trabalhadores, as dificuldades do povo mais simples. E mais,  mostrou que ser professora era coisa muito maior do que estar ali a traçar letrinhas. Era compromisso, dedicação, fortaleza, luta. Conhecia cada  aluno pelo nome e se algum faltava ela ia até sua casa saber o que acontecia. Sabia dos seus sonhos, dos seus medos e nunca faltava um sorriso, um afago, o aperto forte de mão. Com essa mulher aprendi tanto  sobre a vida, sobre as contradições de um sistema que massacra alguns para  que poucos tenham riquezas. E aqueles caminhos de ônibus até o Passo me  fizeram a mulher que sou.
É esse direito que eu queria que cada criança pudesse ter: a  possibilidade de passar por uma professora ou um professor que seja mais do que um “funcionário“, mas uma criatura comprometida, guerreira, capaz de ensinar muito mais do que o be-a-bá. Um criatura bem paga, respeitada,  amada e fundamental.
Mas os tempos mudaram, os professores são mal pagos,  desrespeitados, vilipendiados, impedidos de conhecer seus alunos,  obrigados a atuar em duas ou três escolas para manterem suas próprias famílias. Não podem comprar livros, nem ir ao cinema ou ao teatro. São peças do sistema que oprime e espreme.
Os professores de 2011, em Santa Catarina, são acossados pelatropa de choque, porque simplesmente querem o direito de ver respeitada a  lei. O governador que não a cumpre descansa no palácio, protegido. Mas aqueles homens e mulheres valentes, que decidiram lutar pelo que lhes é direito, enfrentaram os escudos da PM, o descaso, a covardia, a  insensatez. E ao fazê-lo, estabelecem uma nova pedagogia (paidós =criança, agogé =condução).
Não sei o que vai ser. Se a greve acaba ou se continua. Na   verdade, não importa. O que vale é que esses professores já ensinaram um   linda lição. Que um valente não se achica, não se entrega, não se acovarda. Que quando a luta é justa, vale ser travada. Que se paga o preço pelo que é direito.
Tenho certeza que, aconteça o que acontecer, quando esses professores voltarem à sala de aula, chegarão de cabeça erguida e alma em   paz. Porque fizeram o que precisava ser feito. Terão cada um deles essa  firmeza, tal qual a minha primeira professora, a Maria Helena, que mesmo nos mais duros anos da ditadura militar, seguiu fazendo o que acreditava,   contra todos os riscos. Oferecendo, na possibilidade do saber, um mundo  grandioso para o futuro dos seus pequenos. Não é coisa fácil, mas esses,  de hoje, encontrarão o caminho.
Parabéns, professores catarinenses. Vocês são   gigantes!

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