11 de jul de 2011

Ele não pode


Cláudio Lembo no Terra Magazine
De São Paulo
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, desenvolveu sua campanha eleitoral a partir de uma frase: "Nós podemos". Queria levantar o orgulho nacional dos norte-americanos em continua queda.
Acreditava-se que, por se tratar do primeiro negro a assumir a presidência daquele País, que o humor de seus cidadãos tomasse impulso e reconduziria os Estados Unidos a sua grandeza econômica e moral.
Não aconteceu, contudo. Os governos - democratas ou republicanos - levaram os americanos a caminhos de difícil retorno, deixando profundas mazelas em milhares de pessoas.
Foi assim na guerra da Coréia. Não diferente no caso do Vietnã, onde a tragédia das drogas devastou as tropas americanas. Pior, ainda, vai sucedendo no Afeganistão. E grave é a invasão e a ocupação do Iraque.
Todas as intervenções - depois da Segunda Guerra Mundial - foram desastrosas. Agrediram valores de outros povos e levaram a juventude americana a um profundo desconforto.
O futuro da sociedade está sofrendo dilaceração física e moral. As tropas lançadas nas montanhas da Ásia se encontram desconfortavelmente acantonadas.
Combatem um inimigo que já venceu todas as grandes potências e sobrevive graças a uma capacidade única de resistir a todas as adversidades. Naquelas montanhas ocorre uma batalha injustificável.
Não haverá vencedores. As tropas aliadas aos Estados Unidos, como acontece com contingente americano, sofrem diariamente fortes perdas entre seus jovens integrantes.

As intervenções só produzem sofrimentos nas sociedades agredidas e naquelas que praticam atos de indevida agressão. São guerras injustas, porque respaldadas em causas falsas e, por vezes, indefinidas, especialmente após o fim da União Soviética.
Estas divagações recolhem conteúdo em uma pequena notícia estampada em espaço reduzido em poucos jornais (Folha de S.Paulo, por exemplo). O presidente Obama resolveu enviar telegrama de pesar às famílias dos militares que se suicidam nas frentes asiáticas.
A prática rompe velha tradição das forças armadas norte-americanas. O suicida, de acordo com as práticas militares, assemelha-se a um desertor, salvo quando busca morte voluntária para a preservação de um segredo de guerra.
Agora não. Todo o suicida, em serviço, no Iraque e no Afeganistão, passa a ser analisado como um ser que não suportou as agruras das condições impostas pela geografia e pelos naturais dos países ocupados.
O ato do presidente Obama é meritório, mas aponta para uma realidade amarga e produto de mentes egoístas presentes no centro do poder na América.
A visão militarista do governo e dos empresários dos Estados Unidos lança a juventude norte-americana ao desespero. A droga ocupa espaço significativo nas comunidades de jovens. Quando escapam deste flagelo, incorporados às tropas, sentem-se sem perspectivas.
Resta-lhes a saída patética da perda da vida por vontade própria. Perdem o sentido da vida. Esta fica sem objetivo. Rompem-se todos os valores morais.
Uma sociedade profundamente cristã, como a norte-americana, vê no suicídio uma violação da relação das pessoas com Deus. A este pertence à vida concedida e não a seu detentor.
Imagine-se a dor dos familiares ao receberem os telegramas de sentimentos enviados pela Casa Branca. Os suicidas não recebem honras militares. Serão recordados, no entanto, pelo ato de auto-eliminação.
O presidente Obama, que a partir do Rio de Janeiro, decretou ações contra a Líbia, deveria ser mais afirmativo. Ir além dos meros telegramas e informar à Nação a retirada plena das tropas de todos os lugares indevidamente ocupados.
Estaria dando uma demonstração de respeito aos outros povos e de salvaguarda da vida de seus conterrâneos. Aí, sim, poderia proclamar em alto som: Nós podemos.

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