13 de jul de 2011

Chernobyl: um impressionante passeio pelo maior acidente nuclear da história


Texto do repórter Aiuri Rebello, publicado na edição de número 194 da Revista Trip, em novembro de 2010. Vi no Blog de Ricardo Setti.
Em uma manhã do verão europeu deste ano, um grupo de turistas aguarda animado o passeio. O ponto de encontro é em frente ao hotel Kozatski, no centro de Kiev, capital da Ucrânia. A excitação é geral, e nada denuncia o que está por vir. Até que Sergei Ivanchuk, o guia, lê a lista de regras da excursão. “Levem água potável”, começa ele. “Você só pode ir se não tiver contraindicações para radiação ionizante”, continua, sério. “E, se estiver contaminado no fim do dia, não poderá deixar o perímetro.”
Apesar disso, Sergei garante que nada vai acontecer. Mas prossegue: “Não peguem em nada, evitem andar fora do concreto e nunca se afastem de mim”. Também é proibido fumar. “Se você está aqui, sabe que irá se expor à radiação e o fará por livre e espontânea vontade. Não nos responsabilizamos por qualquer possível efeito nocivo à saúde dos visitantes”, finaliza. Termo de responsabilidade assinado, é hora de ir.
Estamos a caminho da área de exclusão de Chernobyl, um bolsão de radioatividade criado pelo pior acidente nuclear da história. Na madrugada de 26 de abril de 1986, operários da usina nuclear realizavam testes no reator número 4 quando perderam o controle do processo da fusão do urânio e o reator explodiu. Toneladas de material radioativo foram jogadas na atmosfera.

Segundo relatório de 2006 da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica da ONU), das centenas de trabalhadores da usina e bombeiros que combateram o incêndio de 15 dias, 28 morreram por causa da radiação. A estimativa otimista prevê que mais de 4 mil pessoas desenvolveram câncer ou irão desenvolver a doença por causa do acidente. Foi criada uma área proibida num raio de 30 quilômetros ao redor do reator 4, conhecida como Zona. Mais de 100 mil pessoas tiveram que abandonar a região e a área contaminada ficou fechada por 16 anos.
Desde 2002 está liberada para visitação, e agora é um dos destinos turísticos mais procurados da Ucrânia. No comecinho foram poucos turistas. Dois anos depois, segundo o governo, mais de 800 visitantes já tinham passado pelo local. Em 2009, 7.500 pessoas de todo o mundo estiveram lá. E a expectativa é que neste ano o número de turistas cresça ainda mais.
Qualquer maior de 18 anos pode conhecer o cenário de pesadelo nuclear. Na Solo East Travel, uma das agências que oferecem o passeio, o pacote sai por US$ 150. Dá direito aos vistos de entrada na Zona, transporte, almoço, acompanhamento de um guia que fala inglês e a promessa de estar de volta ao hotel são e salvo antes do anoitecer. Por US$ 10 a mais, é possível levar o seu próprio medidor de radioatividade portátil. No verão, a procura cresce e há excursões quase todo dia. Outro tour popular é para uma base de mísseis semidesativada próxima a Kiev, com direito a passeio de tanque de guerra.
Conjunto comercial abandonado
Vodca contra radiação
Chernobyl fica a cerca de 100 km de Kiev. A viagem, por uma estrada péssima, leva duas horas. Ivanchuk, nosso guia, olha despreocupado pela janela. De calça camuflada e camiseta estilo militar, é um homem atarracado, com pele muito clara e cabelo entre ruivo e loiro. Com 42 anos, fala só o necessário e não faz questão de ser simpático. Dos 18 turistas, seis são mulheres. Há poloneses, alemães, holandeses, norte-americanos e australianos.
No caminho, pastagens, fazendas e bosques. Nada lembra o apocalipse. Mas a primeira coisa que passa pela cabeça ao chegar à fronteira da área de exclusão, cheia de placas com o clássico símbolo nuclear, é que há algo muito errado. Após uma rápida checagem de passaportes, seguimos viagem, agora de janelas fechadas, para evitar a poeira radioativa. Mario Stiller, programador de computadores alemão de 30 anos, era um dos mais animados. Resolveu vir de Düsseldorf, na Alemanha, para um fim de semana em Kiev. “Vi um voo por 60 euros. Resolvi conhecer a Ucrânia de farra e no hotel fiquei sabendo do tour. Sei lá, pareceu interessante.”
Para agilizar a evacuação, foi dito aos habitantes que seria por poucos dias
Após mais uns quilômetros, paramos em Chernobyl, pequena cidade onde viviam 14 mil pessoas. Hoje o lugar é utilizado como base por cientistas, militares e trabalhadores da usina. Ali, como na fronteira, fotos são proibidas, e os níveis de radiação, próximos do normal. Ao longo do passeio, existem locais onde os níveis de radiação são mais de cem vezes acima do normal. No mato, no musgo e na terra em geral, há muito mais radioatividade do que no chão de concreto ou no asfalto.
As pessoas, quase todos homens, vivem ali durante períodos que vão de quatro a 15 dias. Depois saem por três meses para se descontaminar antes de voltar. Ali, acredita-se que bebidas alcoólicas fortes como vodca ajudam a tirar radiação do corpo, assim como a vitamina C. Na vila existe posto médico e policial, cinema improvisado, dois bares e restaurantes. No centro de recepção ouvimos a história do lugar. É a hora de tirar dúvidas sobre a radioatividade no tour.
Uma dose letal de radiação começa a partir de 300 roentgens (medida de radioatividade) por hora por algumas horas. Acima 500 roentgens/hora, a morte é certa. Durante o tour a radiação varia de dez a centenas de microrroentgens. Enfim, a radiação absorvida durante o passeio de seis horas não é tão grande, apesar de muito maior do que o normal. O risco seria a exposição continuada, já que a radiação ionizante é cumulativa no corpo. Dentro da zona de exclusão, existem bolsões de altíssima radioatividade, capazes de matar qualquer planta ou animal em poucos minutos, mas no geral os índices são seguros, garantem as agências de turismo. Sergei jura que a radiação recebida durante um dia é a mesma de um voo entre Estados Unidos e Europa.
A roda-gigante e o bate-bate ainda estão lá
Organismo em colapso
Depois do almoço, a van para em frente ao monumento aos 28 bombeiros e funcionários da usina que lutaram contra o incêndio atômico. Todos morreram até cinco dias depois da explosão. Eles absorveram doses letais de radioatividade em alguns minutos. Poucas horas depois começaram as náuseas, vômitos, queimaduras na pele, queda de cabelo, distúrbios neurológicos e muita dor. O organismo entrou em colapso e se decompôs com eles ainda vivos.
A van segue em direção à usina nuclear e chega à barreira dos 10 km em torno do epicentro da explosão. Nova checagem de documentos e estamos na usina. Os reatores 1, 2 e 3 continuaram a funcionar mesmo após a explosão. Só em 1992 o reator 1 foi desligado. O número 2 operou até 1996, e a usina só foi definitivamente desativada em 2000, quando o reator 3 parou de funcionar. Por aqui, o número de soldados e trabalhadores é grande. Ainda há toneladas de combustível nuclear prontas para serem utilizadas dentro dos reatores 2 e 3.
Agora é hora de conhecer o reator 4. No caminho passamos pelos esqueletos dos reatores 5 e 6, em construção na época do acidente. O coração das trevas não parece tão terrível assim. É possível chegar bem perto, a menos de 100 m. Há um monumento em frente ao local, com guarita e guardinha de plantão. Depois do incêndio, helicópteros soterraram a lava radioativa que restou com areia e chumbo até ela esfriar e virar rocha. Foi construído um sarcófago de concreto e chumbo em torno do local. Ali dentro, jazem dezenas de toneladas de material altamente radioativo. Alguns segundos de exposição seriam fatais. Os turistas capricham nas fotos com o cartão-postal do inferno ao fundo. Perto dali, passamos de van pela Floresta Vermelha, onde o medidor de radiação dispara e começa a apitar. O nível de contaminação é quase 200 vezes acima do normal. Logo após a explosão, uma lufada de vento cobriu esse pedaço de floresta com fuligem nuclear, e as árvores e plantas ganharam uma coloração avermelhada e tornaram-se altamente radioativas.
Turistas espiam as ruínas de Pripyat
Animais vivem lá numa boa
Pripyat, onde viviam 45 mil pessoas, é uma legítima cidade fantasma. A poucos quilômetros dos reatores, foi evacuada às pressas, mas somente 30 horas após a explosão. Ninguém foi avisado do que estava acontecendo. Quando os caminhões do exército chegaram, no amanhecer do segundo dia de incêndio, pegaram todos de surpresa. Para agilizar a evacuação, foi dito aos habitantes que seria apenas por poucos dias. A cidade foi abandonada para sempre. O governo soviético escondeu o acidente por vários dias. Grandes áreas da Belarus e da Rússia foram contaminadas e evacuadas. Até a Escandinávia foi atingida, e a nuvem radioativa foi detectada em sensores por toda a Europa.
A cidade projetada de Pripyat foi inaugurada nos anos 70 e representava o urbanismo socialista, com grandes áreas públicas. Hoje, todos os edifícios estão em ruínas e, pouco a pouco, tudo é engolido pelo mato. Ao chegar, encontramos outros três grupos de turistas. O lugar é impressionante. São dezenas e dezenas de prédios abandonados a se perder de vista. Grandes conjuntos residenciais, blocos comerciais. Tudo vazio, saqueado e tomado pelo mato.
Seguimos a pé, entre imagens de propaganda socialista da época. Existem ruas completamente tomadas pela vegetação, e o silêncio absoluto só é quebrado pelos pássaros. Há ainda esquilos, raposas, lobos e toda espécie de vida selvagem. E um verde exuberante por toda parte. “É como se, com a saída do homem, aqui tivesse virado um santuário ecológico. Os animais parece viver bem aqui na Zona, mesmo em áreas com bastante radiação. Há estudos conflitantes. Uns dizem que a vida selvagem não é afetada. Outros garantem que mutações estão acontecendo. Na verdade, não sabemos”, explica Sergei. A quantidade de pernilongos vorazes que picam com violência o tempo todo preocupa. Mas o guia ri e diz novamente que não há problema algum. “São só mosquitos. No inverno é muito pior, tem lobos por aqui”, conta, rindo.
Medidores de radiação corporal: máquinas toscas com cara de anos 70
Pergunto se ele não tem medo. “Faço isso há quase dez anos. Nunca tive nenhum problema de saúde, tenho mulher e filhos e vivo normalmente”, responde, contrariado. E diz que, depois de algumas incursões, sempre respeita uma quarentena para descontaminação antes de voltar.
Passamos por um conjunto de apartamentos e chegamos ao parque de diversões. A roda-gigante e o bate-bate ainda estão lá. Depois vêm o ginásio de esportes e uma escola, com livros espalhados para todo lado. Ainda há máscaras de proteção perdidas pelo chão, junto com cadernos infantis e bolas de basquete. Nas paredes, cartazes ensinam como colocar a máscara contra radiação. Outros mostram como montar corretamente um rifle de assalto. Começa a escurecer e Sergei chama todos para a van.
Na fronteira com o mundo real, hora de passar pelo medidor de radiação corporal. São máquinas toscas com cara de anos 70. E quem não passar no teste não pode deixar a Zona até estar mais limpo, o que pode levar dias. Andy Lawrence, um americano que vive na Bélgica há dez anos, vai primeiro e leva um susto. Nível 3, sinal vermelho. Apavorado, é instruído a repetir o teste. Depois de segundos intermináveis, nível 2. Ele passa pálido, lamentando ter colocado a mão em tudo, de livros a reboco no chão. Os outros passam raspando, painel aceso no segundo nível de contaminação. Sim, todos estão contaminados com índices não tão inofensivos assim. “Em uma semana o nível volta ao normal, eu garanto”, bate no peito o intrépido guia. Ninguém faz piadas ou ri durante todo o caminho de volta até Kiev.
Nas paredes, cartazes ainda ensinam como usar máscaras contra radiação

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