6 de mai de 2011

Licença poética

Do blog Aurora de Nietzsche
A leveza brincalhona de um anjo bom: do pertencer apenas a si mesmo


Queriam que ela defendesse ideologias e partidos, consideravam-na idiota porque não possuía ideologias e nem se vinculava a partidarismos. Pedir isso a ela? Logo ela que vira os escombros de uma guerra sangrenta, responsável por esmagar vidas inocentes em nome de ideologias estúpidas e cruéis. Não, ela não pertencia a qualquer ideologia; sabia que ideologias podiam matar em grande escala e eram convites perigosos ao radicalismo. Ela gostava de observar o mundo com dedos cuidadosos e não com uma boca gulosa; desconfiava dos radicais, pois percebia muita dor e violência em seus corações; às vezes sentia vontade de pegá-los no colo e de lhes suplicar para que mergulhassem na diversidade da existência humana, mas não ousava fazê-lo. Ela recusava-se a dissuadir os radicais; isso porque, ela sentia que a crueldade do mundo às vezes exigia certa radicalidade e, sim, existiam radicais honestos que ela admirava - ela respeitava as subjetividades diferentes da sua e essa era uma lei dentro de seu coração. Além disso, ela  fora vítima do radicalismo e, por isso, sentia pavor de fazer aos outros aquilo que fizeram com ela. Sim, ela era vítima de um mundo que segregava brutalmente os diferentes em nome de ideologias e partidos. Não, ela não pertencia ao pesado mundo dos radicais - ela amava ser livre.
Queriam que ela amasse a terra onde nascera e que levantasse bandeiras em favor desta terra. Pedir isso a ela? Logo ela que detestava as fronteiras que barravam o abraço fraternal dos homens. Logo ela que imaginava uma comunidade de homens livres para transitar por todas as terras, porque amava colher flores em todos os jardins e comer os frutos de todas as terras. Não, ela não podia aferrar-se a sua terra e nem ao seu continente, isso ia de encontro ao afeto que sentia pelos homens, que possuíam mais semelhanças entre si do que qualquer aparente diferença. Não, ela não pertencia ao pesado mundo dos nacionalistas - ela amava ser livre.
Queriam que ela pertencesse a grupos religiosos e espirituais, diziam que a mística era a responsável pelo encanto dos dias e que a vida sem religião não valia à pena ser vivida. Pedir isso a ela? Logo ela que outrora rezara com os olhos inundados de água e que se devotara aos projetos de Deus com paixão avassaladora. Ela que estudara os textos sagrados à exaustão. Não, não podiam pedir isso a ela. Ela já havia compreendido o porquê da crença em Deus e o porquê das religiões; com enorme dor no peito percebeu que alguns dos piores homens que conhecera eram religiosos e usavam da religião para roubar o coração de outros homens. Ela também sabia que havia doçura, amabilidade e verdade em certos religiosos, mesmo assim, eles pareciam ingênuos aos seus olhos. Não, ela não pertencia à pesada clausura das religiões e dos grupos místicos - ela amava ser livre.
Queriam que ela amasse como a maioria das mulheres amava. Pedir isso a ela? Logo ela que raramente admirava alguma mulher, justamente porque a maioria só desejava seguir a tradição. Ela se recusara a esperar pelo príncipe encantado, que existia somente nos sonhos de meninas. Para ela, o amor era apenas afeto e vontade de libertar - tradição e amor não pareciam expressões afinadas em seu universo. Ela recusava-se a cerrar suas asas, ou cerrar as asas de alguém, e permanecer confinada às estruturas da tradição. Não, ela dizia não a quem dissesse que ela sofreria por não seguir os mandamentos sociais. Na verdade, sofria às vezes por viver numa sociedade que não questionava suas estruturas e que parecia satisfeita com mentiras e aparências. Não, ela não pertencia ao peso dos tradicionalismos irrefletidos, das aparências e das mentiras - ela amava ser livre.
Ela pertencia aos céus, aos mares, às estrelas. Ela pertencia ao mundo, aos sabores, aos sorrisos. Ela pertencia às delicadezas, às músicas, aos ventos. Ela pertencia somente à candura de seus braços - finos e felizes; era leve porque não permitia que ninguém a dirigisse e, por isso, compreendia em silêncio a alma de todos homens. Não queria mudar o mundo, apenas gostaria de conhecê-lo mais e mais, e de viver, serena e confortável,  desfrutando dos jogos e dos sabores deste mundo. Ela não parecia humana - mas angelical; isso porque, ela flutuava em raridade, tal qual um anjo bom, que apenas pertencia a si mesma e ao seu mundo possível; por isso, e só por isso, brincava e era feliz.
por Renata Rodrigues Ramos

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