18 de mai de 2011

A capa preconceituosa da New Yorker

A charge da charge, jogo dos sete erros
Por Marcelo Csettkey em 17/5/2011 no Observatório da Imprensa
A capa da revista New Yorker publicada em julho de 2008 como objeto de análise se dá pela escolha de uma charge — de autoria de Barry Bitt — que expressou nítido preconceito. A visão maniqueista incutida no desenho sintetizou o pensamento reinante da era Bush: intolerância étnica, belicosidade e arrogância. A ótica reducionista perpassa pelos detalhes da charge. Enumerá-los no jogo dos sete erros é uma forma interessante de pontuar a tentativa infrutífera de desmoralizar o então candidato Barack Hussein Obama.
Comecemos pela que viria a ser a primeira-dama dos EUA: Qual a razão usada para colocá-la como guerrilheira portando uma metralhadora!?
O rosto de Bin Laden
Michelle Obama nunca fez apologia ou simpatizou com grupos radicais, e pior, fundamentalistas. Sendo assim, o rosto de Michelle foi substituído pelo rosto de Osama bin Laden.
Preconceito e intolerância
Obama trajado de uma vestimenta muçulmana também não tem o menor sentido. A utilização inapropriada da vestimenta, tudo indica, aponta para o preconceito étnico e intolerância racial.
O símbolo da ONU
A alusão ao quadro de Osama bin Laden, o líder da Al Qaida, na parede do suposto Salão Oval é descabida. Por esse motivo, o símbolo da ONU é apropriado, já que Obama está alinhado às decisões multipolares.
Eliminação de Bin Laden
Obama sempre prometeu caçá-lo em sua campanha presidencial e logrou êxito recentemente, eliminando-o no domingo, dia 1º de maio de 2011.
Cenário de ópera bufa

Um sucesso negligenciado por Bush em seus oito anos de mandato. Para Bush, a figura de Bin Laden vivo, ao que pareceu, foi vital para nutrir ódios e alimentar o hard power – alegar o desconhecimento total do paradeiro do maior inimigo dos EUA, como fez Robert Gates, secretário de Defesa de Bush mantido por Obama até bem pouco tempo – foi útil até o momento em que Bin Laden se tornou uma peça descartável, já que sua imagem alçada aos píncaros da periculosidade já não era mais útil ao aparato bélico estadunidense. Morto e defenestrado, provavelmente reelegerá Obama. Para o primeiro, sua existência, elevou as verbas orçamentárias para a beligerância irresponsável, legando ao seu substituto um déficit astronômico de um trilhão de dólares... Para o segundo, sua morte, de forma estratégica, motivará ainda mais o corte racional de verbas em armamentos. O imenso gasto com defesa ameaça a integridade financeira dos Estados Unidos da América.
Então, Obama resolveu agir, agir corretamente! Manter os paradigmas e estratégias de seu antecessor seria ressaltar argumentos insustentáveis em face da lógica e da razoabilidade – o exemplo histórico foi a derrota de Bush (pai) na disputa presidencial contra Bill Clinton. Perdeu a eleição justamente porque colocou os EUA numa recessão (e não tinha um "11 de setembro" para sustentar ideologicamente o prejuízo). James Carville, o principal conselheiro de Clinton, cunhou uma frase que se tornou célebre: "É a economia, estúpido!" A guerra do Iraque representou lucros astronômicos para as empresas de armamentos e também deu sentido para a existência profissional de imenso contingente militar. Porém, para o cidadão norte-americano significou apreensão: uma guerra mentirosa, inútil e cara – Joseph Stiglitz (Nobel de Economia) calculou o custo da guerra do Iraque em 3 trilhões de dólares. É bem sabido que a "guerra ao terror", em detrimento de estratégias básicas ligadas à inteligência, fomentou projetos de fabrico de armamentos caríssimos, tanques, mísseis, tropas inteiras, para combater, no final das contas, uma quadrilha fundamentalista. E, mesmo usando todo esse aparato, gastando bilhões, Bush, ao invés de caçar sem trégua Bin Laden, preferiu mentir para a população e meter-se no Iraque. Mimetizou sua justificativa diversas vezes para encaixá-la a um apelo de propaganda natimorto. Primeiro, inventando a assertiva da coautoria de Saddam Hussein no atentado de 11 de setembro, depois supervalorizando a periculosidade de Saddam com suas armas químicas e biológicas e até atômicas... Todas inexistentes! Com isso, Bush conseguiu transformar a imagem americana em um cenário de ópera bufa.
Bandeira queimada
Barack Obama, ao invés de queimar a bandeira americana como alude a charge, ostenta-a! O presidente dos Estados Unidos da América está refazendo a imagem de seu país perante a humanidade.
Admitir um erro é válido
Mitiga os riscos de futuros ódios, dilui a imagem agressiva dos EUA ao priorizar o soft power e anuncia o corte racional de verbas, como está supracitado. A estratégia de Obama não passa mais pela ostentação de armas, mentiras e agressões – a marca da incompetência de Bush –, mas sim, por diálogo e decisões multipolares alinhadas à ONU. Essa é a "nova ordem mundial". A aplicação do sonho megalomaníaco definida no Projeto para o Novo Século Americano e sua parte anexa referente ao Complexo Industrial Militar – o Rebuilding America´s Defenses – tem se mostrado, é o que se percebe, um imenso fracasso. Um fracasso que representou a perda de milhares de vidas em fase produtiva e trilhões de dólares de prejuízo. Logo, é esse projeto retrógrado dos neocons que deveria ser queimado na lareira do Salão Oval. Aliás, é nesse projeto beligerante que se encontra a expectativa expressa da necessidade de um "evento catastrófico nos moldes de Pearl Harbor" – capítulo I, página 51. O "evento catastrófico" aguardado, muito provavelmente, configurou-se em 11 de setembro de 2001. A verdade sobre o fato, sem distorções, ainda está inconclusa, e assim se manterá ad infinitum.
Falar a verdade sobre o 11 de setembro: a de que poderiam saber de toda a orquestração da Al Qaida e mesmo assim deixaram acontecer, por dinheiro e poder, implicaria consequências inimagináveis. Nesse vespeiro, Obama não mete a mão porque sabe que se o fizer perde-a, e muito provavelmente também a vida. Objetivando-se pela lógica da leniência, o atentado de 11 de setembro, em condições normais, jamais teria ocorrido. A CIA, o FBI e o próprio presidente Bush sabiam onde estavam os terroristas de Bin Laden dentro do país e seu objetivo meses antes do atentado. Não agiram, tudo indica, porque a inação seria conveniente para uma posterior reação, bem lucrativa.
A Era Bush jogou o mundo em guerras e ações unilaterais. E para que nunca mais aconteça essa influência nefasta dos lobistas do complexo industrial militar, apoiar as ações de Obama é nutrir nossa esperança de um mundo melhor. E sobre a infeliz publicação da respeitada revista The New Yorker, caberia um mea culpa. Afinal, admitir um erro é válido, mesmo que tardiamente. Nenhum argumento ou imagem, mesmo que seja uma charge, é capaz de transformar uma mentira em verdade.

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