31 de mar de 2011

O passado de Dilma e o presente da China

 Por Fabiano Maisonnave na Folha
O propalado novo peso dos direitos humanos na diplomacia brasileira terá um duro teste na China, aonde a presidente Dilma Rousseff chega daqui a poucos dias, em 11 de abril.
Até lá, é bem provável que a China continue aumentando a lista de escritores, advogados e outros dissidentes políticos detidos nas últimas semanas, na maior onda de repressão promovida pelo governo chinês em vários anos.
O caso mais recente é o do escritor chinês naturalizado australiano Yang Hengjun. Crítico do regime comunista e autor de um popular blog político, ele desapareceu no domingo. Estava no aeroporto de Guangzhou, no sul da China, e não foi mais visto após telefonar ao assistente para dizer que três homens o seguiam.

Segundo a agência Associated Press, Yang telefonou nesta semana para uma irmã na China para dizer que havia sido detido por agentes de segurança. O governo australiano pediu publicamente informações sobre o paradeiro do escritor na terça, mas até agora o governo chinês não deu nenhuma explicação, ao menos publicamente.
O que fez Yang? Autor de novelas de espionagem, mantém um blog em que costuma defender mais abertura democrática na China (alguns dos seus posts podem ser lidos aqui, em inglês. Eu sugiro este).
Yang não é um caso isolado. Extremamente preocupado em evitar qualquer tipo de contaminação vinda dos protestos do mundo árabe, o governo chinês vem exercendo um cerco implacável aos dissidentes.
Um levantamento do blog China Geeks traz 48 nomes de ativistas que, ao longo dos últimos 30 dias, foram presos, detidos por algum tempo ou estão desaparecidos. Yang é o último da lista.

Há ainda casos mais antigos e sem solução, como o do advogado Gao Zhisheng, desaparecido há cerca de um ano sem nenhuma explicação do governo. Antigamente com boa circulação dentro da esfera oficial, ele caiu em desgraça após defender minorias religiosas, entre os quais grupos católicos.

A China não costuma ceder à pressão internacional _ao contrário, vem adotando reações cada vez mais agressivas. Nesta semana, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária cobrou da China informações sobre o paradeiro de Gao. A resposta da Chancelaria: “Respeite a soberania judicial da China”.

No ano passado, quando o dissidente preso Liu Xiaobo foi nomeado Nobel da Paz, a China retaliou a Noruega com pequenas, mas simbólicas medidas, como o cancelamento de reuniões entre oficiais dos dois países.

Na época, um porta-voz da Chancelaria chamou de “palhaços” os países que enviaram representantes à cerimônia do prêmio. O Brasil foi um deles.

Desaparecimentos, presos políticos e regimes autoritários são temas bastante familiares e dolorosos a Dilma, encarcerada por quase três anos durante a ditadura militar. Na China, um de seus desafios será ter uma atuação coerente com a sua trajetória ao mesmo tempo em que negocia com o maior parceiro comercial do país que agora preside.

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