22 de mar de 2011

Compartilhamento versus consumismo


Amália Safatle no Terra Magazine
De São Paulo
Assistia espantada a uma reportagem na tevê sobre mulheres compulsivas, que gastam mais com vestuário do que educação (talvez assim criando um círculo vicioso!) e lotam seu quarto de roupas, sapatos e bolsas que mal terão tempo de usar. A matéria anunciou um especialista para comentar o assunto. Eu esperava um psicólogo ou psiquiatra, mas apareceu uma consultora de moda.
Um psicanalista, ainda que de botequim, associaria a carência afetiva e o crescente número de casos de depressão no mundo ao aumento do consumismo desvairado, como maneira capenga de suprir vazios que, no fundo, são imateriais. E a natureza que aguente o tranco, com toda essa pressão sobre os recursos naturais, o gasto de energia, a geração de resíduos.
Se a depressão é o mal do século, o consumismo vem de brinde. Pague 1 e leve 2. Mas nem sempre foi assim. A ideia de prosperidade econômica, com aumento do consumo e da renda individuais como motor da satisfação humana, tem poucos minutos nas 24 horas da História da humanidade - como diz Ricardo Abramovay, professor titular do departamento de Economia da FEA-USP, à revista Página22, em reportagem publicada sobre felicidade. (acesse a íntegra em http://pagina22.com.br/index.php/2011/03/feliz-foi-adao)

- Esse ideário certamente vai acabar. Talvez a economia da partilha, com toda essa cultura contemporânea de internet, seja um começo de desaparecimento. Em vez de ser pela estatização, como previa Karl Marx, está desaparecendo de outra maneira.
Uma palestra TEDTalk (não tão nova, de 2010), fala justamente sobre essa mudança no comportamento do consumo. (assista emhttp://www.ted.com/talks/rachel_botsman_the_case_for_collaborative_consumption.html)
Não que as pessoas passem a consumir menos e tenham perda em seus padrões de conforto e bem-estar. A questão não é o quanto consumir, mas como, e o quê. A certa altura, a palestrante Rachel Botsman pergunta à plateia quantas pessoas têm uma furadeira em casa. E informa que, em média o aparelho - pasme - é usado de 12 a 13 minutos em toda sua vida útil. Isso para dizer: em vez de todo mundo comprar a sua própria furadeira, por que não fazer o uso compartilhado de poucas? "Você precisa do furo, não da furadeira, certo?". Então, quem tem uma, pode até alugá-la e receber por esse serviço de aluguel. Um edifício, um condomínio, podem ter este e outros aparelhos compartilháveis entre seus moradores.
O mesmo se aplica a tantos outros bens, especialmente os que têm grande ociosidade. Como os automóveis que, em média, ficam mais de 22 horas parados por dia. O carsharing, serviço de compartilhamento de carros, está pegando, mas mais à frente está o peer2peer, ou seja, você aluga para o vizinho o seu carro enquanto está ocioso, e obtém uma renda com isso. Sai a cultura do bem, entra a do serviço. E a constatação de que o que valem são as experiências, as utilidades e as sensações que os bens (compartilháveis) podem prestar - mas não eles em si.
"O compartilhamento está para a posse como o iPod está para a fita cassete e a energia solar está para a mina de carvão", teria citado o The New York Times.
Ele ganha espaço com a cultura arejada da geração Y, cujos representantes, desde criança, estão acostumados a compartilhar arquivos, games, conhecimento.
E depende de um tipo de relacionamento que seja absolutamente embasado na confiança. A web, com suas ferramentas que rastreiam o histórico do consumidor, permite medir o grau de confiabilidade de cada um. Com quem vale a pena fazer negócios.
E o compartilhamento, de quebra, favorece as relações interpessoais. Facilita fazer amigos. Permite a troca, em todos os sentidos. Um encontro entre amigas para trocar peças de roupas entre si talvez seja mais divertido e prazeroso. Talvez isso preencha aquele vazio que o cartão de crédito sempre vai criar, no bolso e na alma.

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