11 de mar de 2011

Democracias, ditaduras e escrúpulos

Por Clóvis Rossi na Folhaonline
Os acontecimentos dos últimos dias na Líbia deixam claro que a falta absoluta de escrúpulos é a grande vantagem que as ditaduras eventualmente levam sobre as democracias.
OK, já sei que você vai dizer que democracias às vezes são hipócritas e às vezes jogam os escrúpulos às favas. É verdade, mas sempre há limites que tiranos como Gaddafi desconhecem completamente --e sempre.
Por isso, comete uma matança que, no caso dos ataques a Ras Lanuf e Brega nesta quinta-feira, provocaram "uma mudança decisiva" na guerra civil em curso, conforme a avaliação de Anthony Shadid e David D. Kirkpatrick, ambos cobrindo no "front" pelo "New York Times".
Posto de outra forma, dão mais motivos para a pergunta que fiz outro dia, ou seja, "e se Gaddafi ganhar?".
Seria a desmoralização das democracias, entaladas nas dificuldades para intervir decisivamente.

É verdade que a França reconheceu como único governo legítimo da Líbia aquele instalado em Bengasi, mas nada impede que a ofensiva desencadeada pelas forças do tirano arrasem também a capital rebelde.
O "New York Times" dizia, no on-line desta quinta, que, "se confirmados, os ataques a Brega sugeririam que as forças leais [a Gaddafi] estariam movendo-se mais adiante rumo a Bengasi, possivelmente atacando as linhas de suprimento rebeldes".
Pois bem: vi na "Al Jazeera" que, sim, as forças de Gaddafi estavam atacando Brega.
Confirma o principal funcionário da inteligência norte-americana, James Clapper: "A vantagem militar e em recursos logísticos do governo assegurariam que, a longo prazo, o regime vai prevalecer".
O que fazer, então? James Lindsay, vice-presidente do Council on Foreign Relations, listou sete possíveis cursos de ação para os Estados Unidos, apenas para descartar um após o outro. São: zona de exclusão aérea; zona de exclusão de veículos; empurrar algum país a intervir na Líbia; armar os rebeldes; pedir a outros países que armem os rebeldes; fornecer inteligência militar tática aos rebeldes; e fornecer-lhes suporte moral e humanitário (esta última é risível, convenhamos).
"Nenhuma dessas opções é atraente", conclui Lindsay.
Não sei, não, mas uma zona de exclusão aérea, a esta altura, poderia conter a carnificina porque os testemunhos dos repórteres em campo indicam que só a partir do momento em que passou a usar bombardeios aéreos é que Gaddafi conseguiu a "mudança decisiva" anotada pelo "New York Times".
O problema para implementá-la é que os escrúpulos das democracias pedem que seja aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. E, aí, uma ditadura aberta (China) e uma velada (a Rússia) não teriam escrúpulos em vetar.

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