17 de mar de 2011

Drama do DEM é o eleitor

Por Paulo Moreira Leite na Época

A ruptura de Gilberto Kassab com o DEM é bem maior do que um lance de opereta em nossa estrutura partidária. Representa uma nova demonstração das dificuldades do nosso conservadorismo  político para exibir uma verdadeira base popular em nosso país. Este drama é antigo, ainda que possua rostos novos.
Kassab não vai embora do DEM porque discorda das idéias de Agripino Maia ou Rodrigo Maia mas porque a sigla deixou de lhe oferecer perspectivas eleitorais. O prefeito de São Paulo sonha em concorrer ao governo do Estado  em 2012 mas não poderá fazer isso se permanecer numa legenda que não parou de perder oxigênio desde que perdeu seu maior alimento político — o regime militar.
Por vias tortuosas, que ainda não estão inteiramente claras, Kassab se afasta do DEM e procura abrigo na grande árvore do governo Dilma. Por que? Porque tem certeza de que nessa companhia terá oportunidades melhores para ganhar votos. Pela mesma razão, nos últimos meses o prefeito de São Paulo gosta de lembrar as preocupações sociais de sua administração.
Cada um tem o direito de julgar o comportamento de Kassab mas não há dúvida que ele reflete um problema maior, que envolve aspectos básicos da política brasileira, onde o conservadorismo tem pouquíssimo fôlego para crescer — ao menos em ambientes democráticos.

O mundo desenvolvido assiste hoje a uma nova onda conservadora, que começou na Inglaterra com a derrota dos trabalhistas, espalhou-se por vários países europeus e chegou aos Estados Unidos do Tea Party. Sua origem é óbvia. Encontra-se no colapso economico dos derivativos e das hipotecas de segunda inha, que nem os partidos social-democratas nem o governo de  Barack Obama foram capazes de enfrentar com um mínimo de eficiencia.
Embora se fale em desaceleração da economia no Brasil, os dados recentes mostram que o país segue numa situação de prosperidade e crescimento. O último levantamento do IBGE anuncia um novo recorde na criação de empregos formais e registra um aumento da atividade nos principais setores.
Ninguém acredita numa repetição do crescimento de 7,5% em 2010 mas a grande novidade dos jornais, hoje, é a presença de analistas que reconhecem que podem ser sido exageradamente pessimistas em suas previsões de esfriamento da economia. Enquanto a situação economica permanecer assim, a luta política será resolvida no plano das idéias políticas e das visões sobre o país.
Não é um problema de marketing nem de candidatos mais ou menos apresentáveis. O problema do nosso conservadorismo é sua dificuldade para oferecer uma resposta clara para a questão social brasileira — ainda hoje a grande fronteira de nossa vida política.
Num país com um padrão imenso de desigualdade, o Brasil transformou o ideário conservador numa grande idéia fora do lugar. Essa é a dificuldade real de seus candidatos.
Colocado na defensiva pela reconstrução da Europa no pós-guerra e pelo longo domínio do Partido Democrata sobre a política americana depois de Franklin Roosevelt, o conservadorismo conseguiu reerguer-se nos países desenvolvidos a a partir da crítica ao Estado do Bem-Estar Social. Foi assim nos anos 80, na Inglaterra de Margaret Tatcher e nos EUA de Ronald Reagan. O discurso conservador, nesses países, tinha o tom de quem combatia privilégios e abusos. Chegava ser indignado e possuia apelo popular.
O problema, no Brasil, é: como falar em menos Estado num país onde o Estado é acima de tudo uma grande ausência?
Como fazer a crítica ao regime de Bem-Estar Social quando ele nem existe? Como falar de inchaço e de empreguismo quando eles coexistem com a falta de funcionários?
São perguntas que não fazem sentido para a grande maioria dos eleitores.
Esta é a questão.

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