14 de out de 2010

A história do mundo

Por David Coimbra de seu Blog

A HISTÓRIA DO MUNDO - 1º CAPÍTULO

Neanderthal - um solteiro feliz

Mas como foi que derrotamos os neanderthais? Trata-se de profundo mistério. Eles tinham tudo para nos vencer. Nós, que digo, somos os sapiens sapiens, os “homens duplamente sábios”. Verdade que fomos nós mesmos que nos pespegamos esse nome, mas, enfim, talvez mereçamos. Afinal, só nós sobramos dentre todas as espécies de homos, os pitecos, os erectus, os habilis e tantos mais. Logo, se o critério for a evolução de resultados, somos mesmo duplamente sábios.
Só que bater os pitecos, os habilis e os erectus foi barbada. Alguns deles se erguiam a pouco mais de metro de altura, a maioria possuía uns cerebrinhos deste tamanho e, o principal, nenhum deles desenvolveu a mais eficiente de todas as ferramentas humanas: a linguagem.
Mas com os neanderthais era diferente.
Com os neanderthais o arroz era mais solto.
Um neanderthal, imagine um vindo em sua direção: não muito alto, mas também não se podia dizer que fosse um Romário: 1m65cm, em média. Forte, retaco e compacto como um buldogue, uns 100 ou 120 quilos de músculos poderosos envolvendo ossos sólidos. Feito um Mike Tyson, só que mais largo e mais baixo. E de pele leitosa - peles claras absorvem melhor os raios de sol, providencial para quem vive em lugares frios como a Alemanha, onde foi descoberto o primeiro esqueleto neanderthal, mas um problema se você precisa viver a vida praiana sob uma canícula de 40°C em Cidreira e não tem sempre à mão o protetor solar fator 60.

Esse neanderthal que avança com resolução ameaçadora para você, ele talvez leve à mão um instrumento cortante, um machado de pedra ou uma lança de sua própria lavra - ele é engenhoso, ele constrói. E o mais relevante: alguns cientistas especulam que o neanderthal sabia falar.
No entanto, mesmo munido de todos esses equipamentos, o neanderthal sumiu. Por 70 ou 80 mil anos, conviveu conosco - os outros homos já haviam se evanescido na poeira dos milênios. Éramos nós e eles, ninguém mais.
Importante: o neanderthal não foi nosso antepassado. Ele era, simplesmente, diferente. Outro tipo de homem, que não foi absorvido, que não se mesclou ao homem moderno; que foi extinto.
Isso é de fato intrigante. O gênero humano existe há bem 3 milhões de anos, ou mais. Mas aqueles antigos hominídeos foram se extinguindo, como se extinguiram os dinossauros, os pterodáctilos e o pássaro dodô. O que me leva a concluir que a extinção de algumas espécies é um processo natural da evolução. Será que devemos tentar mesmo preservá-las? Não tenho certeza a respeito de todas. De algumas, sim. O bacalhau. Dizem que o bacalhau está desaparecendo das águas geladas do Mar do Norte, na branca Noruega. Não quero viver num mundo sem bacalhau. Não quero me contentar com filezinho de cação salgado ao invés do bacalhau à Gomes de Sá.
Seja como for, suponho que algumas espécies tinham mesmo de se retirar do planeta. Como seria o mundo hoje, se todos os tipos de homem tivessem sobrevivido? Como seria a nossa convivência com homúnculos de um metro de altura que mal conseguissem articular uma frase? Seriam por nós considerados humanos? Haveria possibilidade de nos cruzarmos com eles?
Com o neanderthal isso pode ter ocorrido. Alguns cientistas desconfiam que haja traços de neanderthal em certas pessoas do século 21. Quer dizer: pode ter havido relação amorosa entre um neanderthal e uma sapiens sapiens. O contrário, um sapiens sapiens pegar uma neanderthal, duvido que ocorresse. Um sapiens sapiens, delgado, algo quebradiço, não se agradaria de uma mulher tão mais vigorosa do que ele. E ela tampouco se sentiria atraída por aquele ser frágil, quem sabe até um antepassado de decorador. Mas um neanderthal encantar uma sapiens sapiens, isso é totalmente lógico. Conheço muitas mulheres que adorariam se repoltrear com um neanderthalão. Imagine o drama. Os pais da sapiens sapiens não aceitando a relação, dizendo que o neanderthal não era homem para ela. O filho desta união sendo discriminado na caverna. Realmente, acredito nessa possibilidade. Deve haver descendentes de neanderthais por aí. Suspeito de um antigo zagueiro do Guarany de Bagé e do pai de uma ex-namorada minha.
De qualquer maneira, direta ou indiretamente, seja pela guerra, seja pela consumpção de recursos vitais, nós, sapiens sapiens, exterminamos com os neanderthais. Há mais ou menos 280 ou 290 séculos que não se tem notícia do neanderthal, o que é um zapt-zupt em termos de tempo biológico.

Como conseguimos?

Se não foi a força física, se não foi a inteligência superior, se não foi a habilidade da fala, se nada disso nos auxiliou a derrotar os neanderthais, o que nos deu tal vantagem?
Direi.
As nossas fêmeas.
Os neanderthais eram muito mais masculinos do que nós. Um neanderthal, o que ele fazia era sair em bandos de machos para caçar, pescar, arrastar uma fêmea pelos cabelos, pegá-la no colo, jogá-la no solo e fazer dela mulher. O neanderthal não arava a terra, não acumulava e não constituía família. Um neanderthal aproveitava o dia, não se preocupava com o futuro, não meditava sobre a existência, não se angustiava ou ficava ansioso.

O neanderthal era um homem como um homem deve ser.

Um neanderthal jamais iria ao analista “para se conhecer melhor”. Um neanderthal, se lesse Virginia Wolf, ficaria mareado. Um neanderthal não beberia clericot.
Nós, os sapiens sapiens, por que fazemos tudo isso? Por causa das mulheres sapiens sapiens. As neanderthais decerto adoravam sexo melequento e grupal, no lodo dos rios, no alto dos cômoros, na imensidão da savana. As sapiens sapiens é evidente que não. O que as sapiens sapiens queriam era criar os filhos. Para isso precisavam constituir famílias. Para isso precisavam domesticar os machos.
E elas o fizeram.
Enquanto os homens saíam para caçar, pescar e coletar, elas cuidavam das crianças. No recesso do lar ancestral, elas tiveram tempo para domesticar alguns animais que os homens haviam trazido para o abate e para observar como uma semente, rojada ao solo, cresce, transforma-se em planta adulta e dá frutos de comer. As mulheres, então, ensinaram aos homens as facilidades da criação dos animais em cativeiro, tornando prescindíveis as divertidas e perigosas caçadas. Inventaram a agricultura, tornando impossíveis os alegres deslocamentos por serras, praias e florestas. Fundaram a Civilização, enfim, e nos deram a política, a economia e os esportes para nos distrair.
Tudo isso elas planejaram, mas havia ainda um obstáculo a ser transposto: o neanderthal. A liberdade máscula de um neanderthal era um péssimo exemplo. Como se ele fosse uma espécie de solteiro das idades primevas. Você já notou como um homem solteiro, que gosta da vida de solteiro, perturba as mulheres casadas? O objetivo de todas as mulheres é casar todos os homens, é reduzi-los à mansa submissão dos domingos em frente à TV, dos jantares com casais, das festas de aniversário de crianças. Um homem solteiro, satisfeito com a solteirice, que se diverte e ri e bebe com os amigos e cativa outras mulheres e não reclama da solidão, esse homem é o fracasso das mulheres. Foi por isso que elas inventaram o amor romântico. Uma invenção recente, aliás. O amor romântico deve o seu prestígio à Idade Média, quando o cristianismo temperou o sexo com a culpa e elevou o espírito em detrimento da carne. O cristianismo tornou vulgar o prazer e sublime o sentimento. É a ideologia que embala as almas norte-americanas e rege o mundo do século 21.
Veja os filmes no cinema. Ouça as músicas no rádio. De quem falam uns e outras? Do amor romântico. Nunca, na história da humanidade, o amor romântico foi tão incensado. Transformou-se em uma das formas, senão a principal forma de dar sentido à vida humana neste Vale de Lágrimas.
Bem. Um neanderthal não precisava procurar o sentido da sua vida, porque o sentido da sua vida era viver. Ele comia, ele dormia, ele se divertia com os amigos, ele possuía as mulheres que desejava. Um neanderthal era um solteiro!
Para as sapiens sapiens, um neanderthal, como um solteiro, urgia ser eliminado. Assim, as sapiens sapiens incitaram os homens sapiens sapiens a se organizar para acabar com os neanderthais.
Então, volto à pergunta com a qual abri o texto:
Como nós, sapiens sapiens, conseguimos derrotar os mais robustos neanderthais?

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