29 de out de 2010

Descendo os degraus da abjeção

(Paulo Nogueira do Diário do Centro do Mundo sobre o famigerado vídeo feito pelo PSDB que postei anteriormente.)
QUANDO PARECE que não há mais chance de descer os degraus da abjeção nesta campanha eleitoral, eis que surge um fato novo.
Os brasileiros foram desagravalemente surpreendidos por um vídeo-catástrofe que mostra o que aconteceria com a vitória de Dilma. Basicamente, o Brasil acabaria. Serra, mártir da democracia exilado no conforto americano, voltaria para nos salvar.
Desta vez, imagino, sem atentados de bolinha de papel ou fita crepe.
O vídeo é tecnicamente bom, o que aumenta apenas sua dose de ignomínia. Colocar calculadamente, hipocritamente medo nas pessoas é a pior forma de fazer política. Isso só aparece quando você não tem argumento concreto nenhum a oferecer. Há nele ignorância: quando a Inglaterra é citada, por exemplo, aparece o rosto de Gordon Brown, que já não está no poder faz meses. E há nele também um que de fascismo quando os pobres são chamados de “classes mais baixas”.

“Meu maior medo é ter medo”, escreveu Montaigne. Os autores deste vídeo querem provocar medo nos brasileiros sem que eles próprios estejam de fato assustados.
Tive apreensão – medo não – em 2001, quando as pesquisas davam Lula como futuro presidente. Ele destruiria a estabilidade de FHC? Iniciaria um programa ensandecido de reestatização? Oito anos depois, os resultados estão aí. O Brasil continuou a caminhada rumo ao centro do mundo, Lula se tornou o presidente mais amado da história nacional, os investidores estrangeiros cortejam o país. Fora isso, Lula trouxe uma política externa desvinculada dos interesses estritos americanos, e o Brasil passou incólume por uma crise financeira global cujos efeitos ainda são notados em muitos países.
Sem contar que pela primeira vez uma administração olhou – sem demagogia – mais para os pobres do que para os ricos, sem que os últimos fossem tratados a pontapés. Lembro de dois depoimentos expressivos de homens de negócios brasileiros sobre Lula, contados nos bastidores. Jorge Paulo Leman, da Ambev, uma vez me disse que ao saber de uma crise em torno da empresa na Argentina Lula pegou o telefone imediatamente e buscou uma solução.
Numa reunião de que participei do Conedit, o conselho editorial das Organizações Globo, ouvi Roger Agnelli, presidente da Vale do Rio Doce, convidado ali para falar da empresa, contou uma história parecida. Lula interviera pessoalmente num problema que a Vale enfrentara no exterior. Leman, da Ambev, fez uma comparação. “Quando a mesma coisa acontecia na época do Fernando Henrique, ele dizia que ia tomar providências e o assunto morria.”
Dá para ter medo ainda? Ou por trás disso se esconde o desejo de voltar ao poder e aos privilégios e mamatas?
O vídeo — fruto do obscuro blog Vou de Serra 45, ao qual você só tem acesso se pedir acesso ao dono e ele aceder — esteve durante alguns dias no site oficial de Serra.
Embora minhas expectativas sobre Serra hoje sejam miseravelmente baixas, ainda assim me senti decepcionado com ele.

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