28 de out de 2010

O simbolismo da ruptura

Da aurora de Nietzsche


Na savana da existência, o leão rompe o casulo e ruge o seu “não"



Não apenas suportar todas as dores do mundo, mas – principalmente – carregá-las nas costas: eis o percurso do camelo rumo ao seu deserto. O animal de suportação segue a penosa sina amparado pela proposição “tu deves”. Oanimus do camelo provém de uma subjetividade amordaçada e tolhida pelo hábito; o camelo “cisca” fora de si e a fraqueza lhe impõe uma constante busca externa por forças para existir.
Nesse deserto particular, o camelo é alvejado por um raio de aurora que lhe desperta as forças potenciais da existência. A partir disso, um imponente rugido anunciará uma nova subjetividade representada, nos textos nietzscheanos, pelo leão.
O rei da selva é aquele movido pelo “eu quero”. O hábito o sufoca, de modo que ele rasga a antiga camisa de força e renasce alumiado. O leão não carrega peso algum. Pelo contrário, ele rompeu com êxito o casulo pesado do “tu deves” com a ferocidade do “eu quero”.
O deserto cederá, então, lugar à savana.
Em meio aos perigos da savana, o leão pisará com a firmeza e com a leveza de um grande rei. Ele é rei pela simples força potencial, e esta não decorre de qualquer desperdício de energia: a imponência do leão é simplesmente gestual; o grande animal contém em si a potência daquele que já realizou a imensa ruptura.
Na savana, os animais mais fracos fugirão ao combate com o rei solar. Essa é a lei selva: a lei do mais forte. 
A força que se desgasta é a força do camelo, porquanto carrega o fardo de um mundo nas costas. A força do leão advém da conservação de energias. Apenas um depósito formidável de energias viabilizará o movimento das engrenagens rumo ao passo imponente daquele que deseja. Enquanto o desejo do camelo é o desejo do bando, que se materializa pelo hábito, o desejo do leão se desvincula do velho, o abandona. O bando necessita do leão, mas a recíproca não é verdadeira, ao passo que o leão encontra forças em sua própria engrenagem, o leão jamais “cisca” fora de si.
Somente o grande desejo leonino pode romper, com um rugido, todos os velhos hábitos e negá-los à revelia do suor. O rugido é o gesto, o suor é o passo. A grande guerra já fora travada, quando o camelo abandonou sua carga para se tornar leão. Dentre mortos e feridos, o rugido se manifesta dos escombros e diz NÃO. 

A aurora leonina contempla o crepúsculo de todos os ídolos. O “ídolo” do leão é somente a própria vontade “transgressora”. A guerra entre pequenos findou. Iniciará, agora, uma batalha entre gigantes, um embate entre subjetividades igualmente fortes: a convivência entre leões e elefantes na savana árida, tórrida e cruel. Nesse novo mundo, somente o mais forte sobreviverá, num jogo de imposições e cessões em prol da sobrevivência.
O leão simboliza, em Nietzsche, a ruptura, a cisão - o corte mais profundo na carne do antigo camelo. Significa, outrossim, a vitória triunfal do egoísmo sobre a doença daquelas subjetividades que farejam fora de si mesmas. Nada ao leão é alheio, nada lhe é estranho: ele é o magistrado supremo das forças que possui. O leão não exala o fedor da doença, mas sim o sangue coagulado pela cicatriz da vitória.
O animal maior representa a suprema liberdade daquele que se desnudou das antigas vestimentas, para percorrer - com leveza - os passos da existência. A liberdade que o leão impõe ao camelo é vital, a fim de que um dia possa resplandecer o bocejo feliz da criança, este sim, capaz de formular os novos signos de um novo mundo. 
"Eu quero!"
"A fórmula de minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta..." NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 16.

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