31 de out de 2010

Lembo: Com Dilma, partidos de oposição terão que se fundir

Comentário: Se o DEM tivesse a clareza de pensamento de Lembo, não seria um partido em extinção. A capacidade de análise de Lembo é impressionante, dissociada de paixões políticas.

Do Terra Magazine

Dayanne Sousa

Para o membro do Democratas e ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, a vitória de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais deste domingo (31) mostra a necessidade de a oposição se reorganizar. "Foram partidos fracos comandados por personalidades fracas e com um traço muito grande de pequena burguesia urbana", critica.
Ele defende que seu partido, o Democratas, se incorpore a outro. Atualmente, o DEM é o principal aliado do PSDB, partido do adversário de Dilma no pleito, José Serra. "Não é possível permanecer nessa forma pequeno burguesa e sem coragem, sem decisão, sem capacidade de agir por si próprio e estar sempre abaixo dos outros", argumenta.
Lembo considera a vitória de Dilma como "um grande momento para a história política do Brasil".
- É a conquista de uma mulher e isso é importante. A gente reequilibra a história do Brasil e, ao mesmo tempo, dá a presidência à maioria das pessoas, que são as mulheres.
Leia a entrevista na íntegra.
Terra Magazine - Para o senhor, o que essa vitória da Dilma representa? Um fortalecimento do PT? Do Lula?
Cláudio Lembo - Não. Creio que, primeiro, é a conquista de uma mulher e isso é importante. A gente reequilibra a história do Brasil e, ao mesmo tempo, dá a presidência à maioria das pessoas, que são as mulheres. Esse é um ponto fundamental. Segundo, ela é eleita depois de uma campanha extremamente desgastante na qual usaram todos os métodos contra ela, mulher, e contra uma mulher socialista. Foi extremamente grave o ingresso de temas que no Brasil não são usuais em campanha como, por exemplo, o assunto religioso. Isso me pareceu muito grave. É uma intervenção indevida de autoridades religiosas no jogo político de um país democrático e harmônico como é o Brasil. E ela certamente será uma boa presidente porque tem capacidade, mostrou uma grande segurança pessoal e se deslocou do presidente Lula. É óbvio que ela teria que falar o nome do presidente, mas ela mostrou que tem personalidade própria e que é uma mulher de muito destemor e coragem. Portanto eu acho que é um grande momento para a história política do Brasil.
O senhor fala que ela se descolou da imagem do Lula. Sem isso ela teria vencido?
Claro que não. Se ela não mostrasse personalidade, não mostrasse que era capaz de decidir situações no momento em que isso estava sendo exigido, ela não teria sido eleita. O povo é muito sensível e, mais do que isso, a televisão faz com que as pessoas apareçam por inteiro no vídeo, nas telas. Você não consegue mentir na tela da televisão. O cínico, o mentiroso e o frágil, na televisão isso aparece com muita clareza.
O senhor acha que o segundo turno foi benéfico para os eleitores?
Eu não diria a você que, agora que se realizou e terminou, foi benéfico. Mas perceba que o nível ético da campanha caiu muito. O uso da internet de uma forma equivocada, em primeiro lugar e, em segundo lugar, o uso da mentira e da falsidade foi muito comum na campanha. Portanto, o segundo turno foi bom porque fez com que o país se dividisse e se esclarecesse, mas ao mesmo tempo houve um desgaste muito grande.
Esse uso da falsidade serviu para os dois lados ou alguém se saiu mais prejudicado?
Eu creio que os dois lados, mas certamente a campanha da Dilma sofreu mais. As situações contra ela foram graves e isso foi muito captado pela sociedade que a todo o momento se informava. Em qualquer diálogo de rua, com qualquer popular a gente percebia o que estava acontecendo.
E como fica a oposição? A oposição terá minoria no Congresso e PT e aliados deverão ter o governo da maioria dos Estados. O que isso vai significar nos próximos quatro anos?
A oposição vai ter que se recompor. Alguns partidos vão ser objetos de fusão ou incorporação a outros. E aí nós teremos bons partidos de oposição. O que se teve até agora foi arremedo, não foi partido de oposição. Foram partidos fracos comandados por personalidades fracas e com um traço muito grande de pequena burguesia urbana. Isso tudo tem que ser alterado porque o país exige uma oposição com coragem e de bastante definição. Não é bom para o Brasil que tenha um partido hegemônico e uma personalidade hegemônica como parece ser a da Dilma.
O ex-governador e senador eleito Aécio Neves declarou em entrevistas na tarde deste domingo que ele acredita que o PSDB precisa de uma "revisão" e vai ter que "assumir de forma mais clara e explícita seu passado". O senhor concorda?
Além de concordar, acredito que ele, o Aécio, será o grande líder - a partir de 2 de janeiro - do Brasil oposicionista. É jovem, capacitado, e também teve uma vitória muito bonita em Minas Gerais.
O senhor falou em fusão de partidos. Que partidos terão que ser fundidos?
Por exemplo, o meu partido. Os Democratas teremos que escolher novos caminhos. Não é possível permanecer nessa forma pequeno burguesa e sem coragem, sem decisão, sem capacidade de agir por si próprio e estar sempre abaixo dos outros. É preciso estar acima e avante senão a gente desaparece. É uma lei da natureza, uma lei que Darwin nos ensinou.
O senhor defende isso dentro do partido?
Claro.
Na campanha, se criticou que a vitória de Dilma significaria 12 anos de um mesmo partido no poder. O jurista Hélio Bicudo chegou a dizer que isso não seria democrático. O que o senhor acha?
Uma ingenuidade da idade. Não tem nada a ver. O povo foi às urnas, escolheu e se quis manter um partido no poder é porque admirou esse partido. O que nós da oposição temos que fazer é sermos capazes de tirar, no voto, esse partido do poder daqui quatro anos.

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