29 de out de 2010

Uma eleição sempre igual

Por Paulo Moreira Leite da Revista Época

Há quase um mês, quando Dilma Rousseff deixou de ganhar a eleição no primeiro por uma margem inferior a 4 milhões de votos, boa parte dos eleitores dizia que queria mais debates antes de tomar uma decisão definitiva.
O segundo turno está aí, domingo, mas nenhum eleitor irá dizer que aprendeu muita coisa de útil. Os candidatos de enfrentaram na Bandeirantes, na RedeTv!, na Record e hoje à noite comparecem ao último encontro, na TV Globo.
O que mudou?
Nada. Dilma saiu do primeiro turno com uma vantagem de 15 pontos sobre José Serra. No último Ibope, divulgado ontem, essa diferença é de 14 pontos. Nos demais institutos, a diferença é de 12 pontos. Pelo quadro atual, a campanha não passou por mudanças significativas depois que Dilma assumiu a liderança nas pesquisas, há quase quatro meses.
A única dúvida naquele momento era saber se seria capaz de vencer no primeiro ou no segundo turno.
Esta situação persiste — ainda que, por uma questão de bom senso, seja prudente recordar que pesquisa é uma coisa, eleição é outra. A principal novidade dos últimos levantamentos é informar que o número de eleitores indecisos é menor do que a diferença que José Serra teria de superar para promover uma virada na reta final.
A prolongada liderança de Dilma na eleição ajuda a entender que a discussão desta campanha ocorreu fora do horário político, fora do confronto entre os candidatos. Nunca esteve nas mãos de marqueteiros. Foi uma discussão entre a vida cotidiana da maioria dos eleitores, seu entusiasmo com o bom estado da economia, e as eventuais alternativas que a oposição pudesse oferecer.
A aprovação ao governo Lula, um recorde histórico, indica que a população está satisfeita e quer uma continuidade do que está aí — situação que tornaria o trabalho da oposição sempre muito difícil. Muitos pesquisadores com olhares até simpáticos em relação ao PSDB jamais esconderam a crença de que José Serra partiu para uma missão impossível ao tentar desafiar a candidata de Lula. A votação de domingo irá dizer se tinham razão.
Por que tivemos um segundo turno, então?
Dilma Rousseff não foi vencida em debates, não cometeu deslizes que comprometessem a herança de Lula nem se revelou uma concorrente risível, no limite da capacidade, como acontece com a mulher de Joaquim Roriz em Brasília. Perdeu votos na reta final do primeiro turno em função das denúncias contra Erenice Guerra e também foi alvo de uma campanha subterrânea nos templos evangélicos. Deixou de ganhar por 3,1 pontos, o que é muito para quem esperava uma vitória naquele momento mas é pouco, na verdade.
Tivemos um segundo turno na matemática — mas sem que houvesse base política para qualquer mudança de fundo. Nas semanas seguintes, assistimos a muita coreografia mas nada que atingisse o eleitorado em suas convicções mais profundas. Explico.
O segundo turno é uma criação destinada a impedir a vitória de um  candidato que, mesmo tendo obtido um número maior de votos do que os demais adversários, não conseguiu a maioria dos votos do eleitorado. Acredita-se que dessa forma possam nascer governos mais representativos.
Na França, socialistas e comunistas votavam em separado no primeiro turno para se unir no segundo. Dessa forma, François Miterrand interrompeu uma sequencia de presidentes conservadores que teve início em 1958 e só terminou em 1981. No Brasil, a criação do segundo turno permitiu a formação de frentes anti-Paulo Maluf e outros herdeiros do regime militar. Políticos de centro (PMDB) e de esquerda (PT) se uniam na segunda rodada para abater o adversário comum.
Essa é a questão em 2010. O grande acordo político do país sempre girou em torno da continuidade do governo Lula. A oposição não conseguiu modificar esse debate.

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