14 de out de 2010

Aborto, anuência e legalização

Do blog Aurora de Nietzsche


Muito embora eu seja favorável à legalização, sou contra o aborto. Ocorre que, tanto a minha opinião quanto a de uma pulga, com relação ao aborto, possuem o mesmo peso.
Agora, no que tange à legalização, minhas convicções contam mais do que a da pulga, por uma simples razão: a pulga não necessita do direito para viver; já eu o considero imprescindível como instância limitadora à barbárie (mesmo sabendo que o direito é sempre imposição do mais forte, com a “esperança” de que os tais fortes um dia sejam justos, vá lá...)
Daí surge a pergunta: onde reside a contradição no fato de Dilma ser favorável à legalização do aborto? Não há contradição nenhuma. Ela, Dilma, não o faria. Todavia, a presidenciável já sinalizou que preferiria a legalidade da conduta à clandestinidade da prática no enquadramento estatal. 
Legalizar o aborto não é sinônimo de autorizações arbitrárias para a interrupção de gestações. 
O STF reconheceu a distinção entre embrião, feto e pessoa: "as três realidades não se confundem: o embrião é o embrião, o feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana.” Caso a legalização seja autorizada, isso implicará a devida regulamentação, que somente decorrerá de amplos debates no espaço público. Obviamente, não se cogitará interromper gestações de fetos, mas apenas de embriões (a ausência de formação neural nessa instância  faz com que o embrião não “sinta” dor). 
Por tudo isso, essa gritaria não tem o menor sentido.
Novamente, ao contrário de discussões robustas sobre política e políticas, encontramo-nos nesse emaranhado religioso caótico. 
À exceção dos charlatões e hipócritas, costumo conviver bem com as religiões e religiosos. No entanto, discordo dos “fundamentos” dessas crenças. Aceitar e conviver são uma coisa; outra, bem distinta, é concordar. 
Às vezes questionam se não é tardio estudar Nietzsche, ao que respondo: “percebam a  atualidade de um pensamento intempestivo: já se passaram 100 anos da sua morte e ainda ficam se ‘desperdiçando’ com o ‘além’”. A filosofia de Nietzsche é a filosofia do porvir que, ao que parece, retarda por chegar.
Como direito e religião andam de “mãozinhas dadas”, tal qual coleguinhas marotos, é difícil pensar em imparcialidade na discussão da legalização do aborto. Por tudo isso, a filosofia de Nietzsche continua, ainda, a filosofia do porvir. Do “ecce hommo”: “por que sei algo a mais? Nunca refleti sobre problemas que não o são - não me desperdicei. - Autênticas dificuldades religiosas, por exemplo, jamais experimentei. Escapa-me, inteiramente o quanto deveria sentir-me ‘pecador’. Desconheço igualmente um critério confiável para [definir] o que seja um remorso: pelo que se ouve, não me parece coisa respeitável… Não gosto de abandonar uma ação após tê-la cometido, preferiria deixar o mau resultado, as conseqüências, radicalmente fora da questão de valor. Quando as coisas resultam mal, perde-se muito facilmente o olho bom para o que se fez: um remorso parece-me uma espécie de olho ruim. Honrar mais ainda dentro de si o que deu errado, porque deu errado - isto sim está de acordo com a minha moral. - ‘Deus’, ‘imortalidade da alma’, ‘salvação’, ‘além’, puras noções, às quais não dediquei atenção nenhuma, tempo algum, mesmo quando criança - talvez não fosse infantil bastante para isso. - ”

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