14 de out de 2010

A história do mundo - capítulo II

Por David Coimbra de seu blog
  A HISTÓRIA DO MUNDO - 2º CAPÍTULO
A Natureza trabalhou com afinco em suas tarefas evolutivas até que a espécie humana atingisse o apogeu genético e produzisse a Megan Fox. Mas, biologicamente falando, o homem sapiens sapiens que cem mil anos atrás roncava sobre o solo duro de pedra de uma caverna da Espanha era igualzinho ao publicitário de rabo-de-cavalo que beberica clericot nos bistrôs do século 21. A diferença, portanto, está no espírito, nos costumes, na maneira de viver.
Na cultura.
O que acicatou essa mudança?
O que tornou o homem o que ele é?

Arrá! É aí que voltamos ao nosso amigo neanderthal. Durante milênios, mais precisamente cem deles, talvez 200, não passando de 300, o sapiens sapiens e o neanderthal experimentaram o mesmo estilo de vida. Ambos eram caçadores e coletores. Quer dizer: viviam do que lhes oferecia a Natureza, não produziam nada. O trabalho ainda não havia sido inventado.
Aquele chiste popular, “quem inventou o trabalho não tinha o que fazer”, provavelmente está certo. A invenção do trabalho foi fruto da reflexão, que é fruto do ócio.
Durante mais de dois milhões de anos, porém, o homem não trabalhou. Dois milhões de anos de alegre vadiagem. No máximo, o homem lascava algumas pedras para usá-las como ferramentas rudimentares e ajudá-lo nas caçadas, que, é evidente, não poderiam ser consideradas trabalho. As caçadas paleolíticas não serviam para produção, eram atividades de sobrevivência. Tal qual ocorre com os tantos predadores da Natureza. Um leão não trabalha, quando campana um gnu, persegue-o, pula sobre ele e lhe arranca um naco do pescoço. Não. O leão, apenas, se alimenta. Então, os homens da idade da pedra vez em quando desbastavam uma rocha para transformá-la em cabeça de machado ou ponta de lança — um trabalhinho. Mas isso era muito de vez em quando. No mais, sapiens sapiens e neanderthais viviam para comer e se reproduzir, como quaisquer outros animais do planeta. Foi como um dia resumiu Freud: tudo na vida é casa, comida e sexo.
E é.
O homem tinha casa, comida e sexo sem restrições, por isso não mudava a sua forma de viver. Você aí, que lê os classificados, que assiste ao Jornal Nacional, que faz buscas no Google, que dirige seu carro e preme os botões do controle remoto, você tem de entender que essa sua vida sofisticada é recente no mundo. Tem a idade de 10 ou, no máximo, 12 mil anos, enquanto que a existência caçadora e coletora durou, vou repetir, MAIS DE DOIS MILHÕES DE ANOS.
Por que durou tanto?
Porque era bom.
O paleolítico era uma festa.
Era uma vida despreocupada, compreende? Como já disse, havia comida em abundância, cavernas para se abrigar, água de beber. O sexo, o homem cometia quando bem entendia, sem objeções morais, sem considerações sentimentais, sem oposições outras que não o próprio móbil do sexo, que é a vontade.
Cobranças conjugais? Não existiam. Sabe por quê? Porque não existia casamento. Nem família existia. Porque o homem, e por homem, aí, me refiro ao gênero masculino, não à mulher, pois o homem não sabia que fazia filhos. Ou pelo menos não relacionava a função sexual com a reprodutiva. De repente, uma fêmea aparecia grávida. O que ocasionara aquela prenhez? Ninguém sabia com certeza. Ainda hoje há tribos indígenas que desconhecem o papel masculino na reprodução e tecem diversas teorias acerca da fecundidade feminil — por causa da lua cheia, por causa de banhos de rio em determinada época, picada de mosquito etc.
Além disso, por favor, ninguém ia pensar em ser monogâmico no paleolítico. Uma mulher mantinha intercursos com vários homens, ou até com TODOS os homens das imediações, como se só houvesse Paris Hiltons no mundo. Logo, a família também não tinha sido inventada. As pessoas se reuniam em clãs. Trinta ou quarenta indivíduos rodando pelo planeta, os homens caçando e pescando, as mulheres cuidando dos filhos, tudo muito tranquilo.
Do que mais precisava o homem?
De nada.
Tendo ao alcance de um braço tudo o que desejava, o homem não pensava no futuro, vivia no presente e para o presente. Não pensando no futuro, o homem não se angustiava. Não se angustiando, o homem não tinha problemas existenciais, depressão, aflições em geral, banzo. Os psicanalistas teriam dificuldade de encontrar freguesia naquele tempo.
Alguém aí pode argumentar que o homem era uma presa dócil de intempéries e desastres naturais, devido ao precário desenvolvimento tecnológico. É justamente o contrário. Desastres naturais pouco afetavam o homem primitivo. Enchentes, por exemplo. Se um rio desbordasse de suas margens, o homem singelamente desmontava o acampamento em que se instalara e se mudava para uma região mais alta. Se um período de seca sobreviesse, ele se transferia para uma região mais amena. O homem era nômade, não conhecia a ideia de propriedade, não possuía roupeiros, camas, fogões, geladeiras e tevês de plasma para levar consigo. Não precisava contratar caminhão de frete para fazer mudança, se quisesse se deslocar de um ponto a outro do planeta. Aliás, planeta mesmo: ninguém exigia passaporte em fronteira alguma, porque fronteiras não existiam. Assim, o sapiens sapiens saiu da mãe África e derramou-se pelo Globo ao sabor das conveniências.
Surge de novo, então, a pergunta fulcral: por que abandonamos aquele estilo de vida? Por que, meu Deus? Por quê???
Por causa das nossas mulheres.
As ardilosas sapiens sapiens.
Porque é o seguinte: como já sublinhei, frisei e destaquei parágrafos acima, a espécie humana caminha sobre dois pés pela superfície acidentada da Terra há dois milhões de anos, talvez mais. O sapiens sapiens, que somos nós, e o neanderthal, já extinto, apareceram há pouco tempo: 100 mil anos, embora alguns cientistas falem em 300 mil anos. Vamos ficar com um número redondo: 100 mil. O neanderthal desapareceu há 28 ou 29 mil anos. Vamos arredondar de novo: 30 mil. Fez os cálculos? Por 70 mil anos, no mínimo, sapiens sapiens e neanderthais partilharam o planeta. Bem. A agricultura foi inventada há não mais do que 10 mil. Portanto, não foi a agricultura que derrotou o neanderthal. O que houve nesses 20 mil anos de interregno, que liquidou com nossos primos?
Já vou dizer.
Foi uma sutil transformação, também patrocinada pelas mulheres. Descrevê-la-ei.
Ó:
Durante aqueles já referidos 70 mil anos de convivência, os dois últimos tipos de seres humanos existentes, eles, neanderthais, e nós, sapiens sapiens, vivemos caçando e coletando. Importante: os homens caçavam, mas não criavam animais. Não os tinham domesticado, nem tampouco os mantinham em cativeiro para abate. Tão-somente os procuravam em seus habitats, matavam-nos e os comiam.
Só.
Em algum momento, porém, um casal de filhotes deve ter sido poupado para diversão das crianças. Esse casal cresceu e se acostumou ao convívio com os seres humanos. E mais importante: crescido, cruzou e reproduziu. Quem estava lá para ver isso tudo acontecendo?
A mulher.
Sim, a mulher é que ficava com os filhos na caverna, na clareira, à beira do rio, onde quer que fosse que o clã acampava, enquanto os homens se divertiam e morriam nas caçadas.
A mulher testemunhou a adaptação do primeiro casal de animais ao meio humano. Que casal foi esse? Que espécie de animal? Difícil saber. Lobos, provavelmente. O lobo é o ancestral de todos os cães, até daquele poodle metrossexual da síndica do seu edifício. Os lobos serviram ao homem primitivo, e foram reduzidos a cachorros com o transcorrer dos milênios. Aquele cachorrinho minúsculo da Gisele Bündchen, que ela chama de, argh, “Vida”, aquele cachorro também descende dos lobos, acredite.
Que seja.
O fato é que a mulher viu como os, vá lá, lobos copulavam e, copulando, se reproduziam. Com isso, aprendeu. Tirou várias conclusões:
1. Que aqueles filhos que um dia lhe intumesceram o ventre decerto tinham sido concebidos graças ao intercurso que ela manteve com um dos homens do clã naquelas baladas loucas da caverna.
2. Que é possível domesticar um animal.
3. Que o animal pode ser criado em cativeiro para ser mais tarde abatido e comido, tornando supérfluas as irritantes saídas dos homens para as caçadas.
Agora um parêntese:
(Você, que joga futebol, repare como sua mulher fica inquieta quando você sai para jogar com os amigos. Não é por ciúme, não é na intenção de preservar sua integridade física das botinadas dos zagueiros toscos. Nada disso. É a angústia primeva que volta a se manifestar. É a ânsia velha de miríades de séculos, que palpitava quando das fêmeas viam seus machos saírem para as caçadas, para expedições que duravam dias ou semanas, quiçá meses, e das quais talvez eles não retornassem. Essa sua mulher que se apoquenta ao vê-lo partir para jogar bola, ela é a mulher da Idade da Pedra).
Fechado o parêntese, sigamos.
Tudo isso a mulher aprendeu. Ela ensinou o sapiens sapiens a domesticar e criar animais. E mudou o mundo primitivo. Porque alguns animais domésticos, como o supracitado lobo, passaram a auxiliar o homem a caçar outros animais. E porque o homem, ao manter os animais em apriscos, jaulas, currais ou galinheiros, começou a dispor de excedente de carne. Mas de que adiantava ter carne sobrando, se a Brastemp ainda não fora fundada e não havia freezers à venda? O homem necessitava de uma forma de conservar a carne. Sabido, descobriu que podia fazer isso salgando-a. Nas terras frias, os homens cavavam buracos no solo e depositavam a carne em geladeiras naturais mais eficientes do que uma de segunda mão que comprei em um brique quando morava em Santa Catarina.
Como descobrira formas de conservar a carne, o homem decidiu intensificar as caçadas. Desenvolveu armas poderosas, como a funda e o arco-e-flecha, bem como táticas arrasadoras: os sapiens sapiens erguiam muros de pedras em áreas enormes, de quilômetros de extensão. Esses muros iam se afunilando até acabar em uma clareira cercada — um matadouro. Os animais eram dizimados. Inúmeras espécies simplesmente deixaram de existir devido a essa matança. Uma delas foi um veado gigante, pouco menor do que um elefante, dono de chifres com três metros e meio de comprimento, de uma ponta a outra.

A ferocidade dos sapiens sapiens
aumentava a cada caçada, assim como sua destreza no manejo das armas e a tecnologia para desenvolvê-las. As manadas que nutriam as duas raças de homem, o sapiens sapiens e o neanderthal, foram escasseando. Mas o sapiens sapiens criava animais, tinha como se sustentar. O neanderthal, não. O neanderthal aferrou-se à existência nômade e livre. Continuou a viver como sempre viveu.
Foi o seu fim.
O neanderthal extinguiu-se por não poder enfrentar a guerra tecnológica do sapiens sapiens e porque o sapiens sapiens suprimiu-lhe a forma de vida ao liquidar com as manadas do mundo antigo. Ao mesmo tempo, com o fim da Era Glacial, as calotas de gelo recuaram para os pólos e as áreas amplas foram se transformando em florestas, tornando ainda mais raros os grandes animais que corriam pela vastidão das planícies. O neanderthal não tinha mais como se alimentar. O neanderthal morreu.
Por causa da mulher.
Vinte mil anos ainda se passariam antes que a mulher, sempre ela, descobrisse a agricultura, observando as sementes que caíam no solo e germinavam e transformavam-se em plantas de comer. Com essa descoberta, ele inventaria a Civilização. Tudo ia começar.
Mas disso nós trataremos no próximo capítulo.

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