25 de out de 2010

Os ministros de Serra

Os financistas estão novamente na pauta

Raymundo Costa | De São Paulo
25/10/2010 
Em campanha, José Serra não gosta de falar da composição da equipe de governo, na hipótese de vencer a eleição. Diz que "dá azar". Mas o fato é que, mesmo na condição de azarão no 31 de outubro, Dia das Bruxas, o tucano tem quadros para ocupar a Esplanada dos Ministérios. Suas dificuldades serão a composição com os partidos políticos, especialmente o PMDB, para assegurar maioria no Congresso, atrair setores do PT e equilibrar o "paulistério", sempre motivo de irritação entre as demais bancadas da Câmara e do Senado.
O governo ideal de Serra teria o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga no comando da economia. O candidato do PSDB pouco tem encontrado Fraga, mas de cada uma das conversas - às vezes um telefonema curto - sempre saiu bem impressionado. Muitas conversas curtas, e uma longa, de cerca de três horas, recentemente. O problema é que o ex-presidente do BC está negociando uma associação do Gávea - fundo de investimentos de Fraga - com o JPMorgan Chase. E o acerto inclui a permanência de Armínio Fraga no comando do fundo.

Tucanos avaliam que Serra, conhecido por sua persistência, pode convencer o Morgan a liberar Armínio Fraga. Mas o simples fato de pensar em Armínio e respeitar suas ideias sobre o câmbio servem de passaporte para Serra tranquilizar os mercados: ninguém desconhece que o candidato do PSDB acha que o real está "supervalorizado" - segundo sua própria expressão - e vai trabalhar no sentido de reverter a tendência de desvalorização do dólar. Mas nada da noite para o dia - o projeto de Serra é estabelecer uma "trajetória de ajuste do câmbio", segundo interlocutores do candidato tucano.
Serra, na realidade, não tem problemas para a formação de equipe na área econômica. Alguns nomes têm escalação garantida, no lugar que as conveniências políticas do tucano permitirem. Um exemplo: o economista José Roberto Afonso, que o tucano sempre consulta, sobretudo em relação a assuntos fiscais. Zé Roberto, como é chamado, foi o principal autor da Lei de Responsabilidade Fiscal. Pode ir para a Secretaria do Tesouro ou para a Secretaria do Orçamento, num primeiro momento. Depois pode até ser ministro, caso Serra seja eleito presidente.
Outro é Geraldo Biasoto, presidente da Fundação de Desenvolvimento Administrativo de São Paulo (Fundap), seja na área do BC (é especialista no assunto cambial), seja na Previdência Social - ele fez o capítulo previdenciário do programa de governo de Serra. Ou ainda Gesner de Oliveira, cotado para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O secretário de Planejamento de São Paulo, Francisco Vidal Luna, é outra indicação certa, mas talvez tenha que abdicar do Ministério do Planejamento, cargo que Serra, sendo presidente, pode destinar a um nome do Rio de Janeiro.
A questão regional é crucial para Serra. O candidato do PSDB tem refletido sobre o "antipaulistismo" com o qual se deparou durante a campanha, nem sempre provocado por iniciativas suas, como é o caso da Zona Franca de Manaus, que combateu na Assembleia Constituinte. O último presidente eleito paulista não tomou posse: Júlio Prestes (1930). Jânio Quadros era de Mato Grosso, Fernando Henrique Cardoso é carioca e Luiz Inácio Lula da Silva, pernambucano. José Serra é paulista.
Paulista deve ser também o principal nome da articulação política do PSDB, caso Serra seja eleito presidente: Aloysio Nunes Ferreira e seus mais de 11 milhões de voto para o Senado. Aloysio é considerado pule de dez para a Casa Civil da Presidência da República. Amigo de Serra, atribui-se ao senador eleito por São Paulo as costuras bem sucedidas na Câmara de Vereadores e na Assembleia Legislativa, quando José Serra ocupou a prefeitura e o governo do Estado.
Na hipótese de Serra ser o escolhido do eleitor, caberá a Aécio Neves indicar mais de um ministro, provavelmente aqueles de maior potencial eleitoral - segundo tucanos, Aécio será o candidato do PSDB a presidente da República já em 2014. Os tucanos avaliam acabar com a reeleição para os chefes de executivo. Apesar da maioria do PMDB, Aécio, num governo Serra, também deve tentar a presidência do Senado. Mas só nos últimos dois anos da legislatura, coincidindo o final de seu mandato de presidente com as eleições gerais. Como haverá a troca de legislatura, Aécio também poderá ficar no comando do Senado, caso a regra da reeleição para cargos eletivos do executivo não mudar. Um dos ministérios que Aécio pode pedir é o de Transportes, principalmente se o novo senador chegar a um acordo com Serra sobre a estadualização de estradas federais e o repasse da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), o chamado "imposto da gasolina", aos Estados.
Já na campanha presidencial de 2002, José Serra falava em "governar com o PT". Foi a eleição que o tucano perdeu para Lula. Agora, mesmo com a radicalização na reta final da campanha, ou sobretudo por causa dela, Serra ainda pensa em recorrer ao que chama de sua "bancada" no PT. Um dos nomes citado entre os tucanos é o do ex-deputado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, hoje dono de um bem sucedido escritório de advocacia em Brasília. "Sig", como é mais conhecido, é amigo de Lula, desses de frequentar o Palácio da Alvorada nos fins de semana, e na constituinte integrava o "grupo dos quatros" - os outros eram Serra, Miro Teixeira (PDT) e Nelson Jobim (ministro da Defesa) - que andava sempre junto. Em ocasiões sociais e nos trabalhos da assembleia. Ele poderia ser ministro da Justiça, cargo para o qual, em princípio, está cotado aquele que Serra passou a considerar "um dos melhores homens públicos que conheci", quando era governador: Luiz Antonio Guimarães Marrey, chefe da Casa Civil do governo de São Paulo e ex-secretário da Justiça de Serra. Marrey, de qualquer forma, deve integrar a equipe de Serra, se o tucano for eleito no dia 31.
Além de uma boa distribuição regional do ministério, o PSDB já se ocupa com a partilha partidária. O Democratas terá lugar assegurado num governo Serra. Os indicados devem sair do DEM da Bahia, Pernambuco e Santa Catarina, onde o partido ganhou o governo estadual com Raimundo Colombo. Os nomes citados são ACM Neto (BA), José Carlos Aleluia (BA), Marco Maciel (PE) e Jorge Bornhausen (SC). Os dois últimos podem indicar ministros, em vez de eles mesmos assumirem cargos. Aleluia e Marco Maciel são vistos na campanha de Serra como aqueles que "foram para o sacrifício" para garantir um palanque tucano nos dois Estados em que é mais alta a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Neste capítulo entram ainda o deputado Fernando Gabeira que, embora seja do PV, pode ficar no Ministério da Cultura. O Ministério do Meio Ambiente tem boas ofertas: Fabio Feldmann, de São Paulo, e o secretário ambiental de Minas Gerais, José Carlos Carvalho. Na Pasta também cabe o encarregado do programa de governo de Serra, Xico Graziano, embora o mais provável é que ele ocupe o Ministério da Agricultura com a missão de negociar um entendimento entre os ambientalistas e o agronegócio. Na visão tanto de Serra quanto na de Graziano, os dois não são excludentes. A Graziano caberia também acabar com o discurso da reforma agrária, a partir do reforço de políticas de agricultura familiar por meio do Pronaf.
Se eleito, José Serra será mais generoso com Fernando Henrique Cardoso do que o foi na campanha, principalmente no primeiro turno, quando "escondeu" o ex-presidente de sua propaganda. FHC deve influir muito no governo Serra e na escolha do chanceler tucano. Atualmente, três nomes são falados entre os tucanos: Sérgio Amaral, Rubens Ricupero e Rubens Barbosa. Curiosamente, o perfil do chanceler desejado por Serra cabe sob medida no figurino do atual ministro Celso Amorim. O tucano quer alguém agressivo no comércio exterior. Amorim foi quem negociou com a Organização Mundial do Comércio (OMC) a quebra de patente de medicamentos. 

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