24 de jan de 2012

Britânicos protestam contra salários ‘indecentes’ dos executivos

Na British Petroleum, ex-CEO chegava a ganhar 63 vezes mais que funcionário comum; Royal Bank of Scotland vai remunerar executivo e demitir trabalhadores

The New York Times 
Enquanto os conselhos de administração das empresas se preparam para votar a bonificação anual de seus principais executivos, os investidores e o governo britânico buscam formas de diminuir o que alguns chamam de pacotes de pagamento excessivos.
Nos últimos dois meses, dois dos maiores investidores do país manifestaram sua desaprovação geral com o nível dos pagamentos a executivos, e pediram que os investidores tenham mais voz sobre essa decisão. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, demonstrou apoio aos apelos desses financistas na quinta-feira, após dizer que grandes pacotes de pagamento, em tempos em que muitas famílias precisam apertar os cintos, podem, compreensivelmente, “fazer o sangue das pessoas ferver”.
Foto: Getty Images
Manifestantes do "Occupy London" protestam contra salários de executivos
Na terça-feira, Vince Cable, o secretário de Negócios do Tesouro, deve apresentar propostas para um sistema de compensação mais justo, incluindo a possibilidade de conceder aos acionistas poder de veto sobre pagamentos. Ele pretende também torná-los mais transparentes, afirmou um oficial do governo que não quis se identificar alegando que as propostas ainda não foram divulgadas.
“Níveis inapropriados de recompensas a executivos destruíram a confiança pública e levaram a uma situação onde todos os diretores são vistos como se fossem pagos em excesso”, afirmou Dominic Rossi, da Fidelity Worldwide Investment, que se uniu à Associação de Corretores Britânicos em seus apelos por mudanças. “A verdade simples é que esquemas de remuneração se tornaram muito complexos e, em alguns casos, muito generosos e distantes do interesse dos investidores.”
O total médio pago aos executivos-chefes cresceu 33% em 2010, enquanto os valores de mercado médios das companhias cresceram 24%, de acordo com o Instituto de Pesquisa para Políticas Públicas. Um estudo feito pela London School of Economics descobriu que um aumento de 10% no valor de mercado de uma empresa geralmente era seguido de uma alta de 3% no pagamento do executivo-chefe, mas de um aumento de apenas 0,2% no pagamento dos trabalhadores comuns.
A irritação da população cresceu após jornais terem divulgado planos milionários de pacotes de pagamentos para os executivos seniores do Barclays, embora o preço das ações do banco tenha caído mais de 30% no ano passado. O Royal Bank of Scotland está para remunerar o chefe de seu banco de investimento com outra soma enorme, embora o banco tenha anunciado milhares de demissões.
A petrolífera Cairn Energy foi criticada por investidores no mês passado por sugerir um bônus de 4,9 milhões de libras, ou US$ 7,6 milhões, para seu presidente para incentivá-lo a vender alguns ativos.
Cameron deixou claro que não era contrário à concessão de bônus para executivos bem-sucedidos, mas estava preocupado com a disparidade entre o pagamento e a perfomance, e o abismo crescente entre o pagamento a executivo e ao trabalhador comum.
Em 2010, o pagamento a executivos das 100 principais companhias britânicas listadas cresceu uma média de 49%, em comparação com o 2,7% do trabalhador comum, de acordo com um estudo do think tank High Pay Commission. Na gigante British Petroleum, por exemplo, o ex-CEO Tony Hayward ganhou 63 vezes o valor do funcionário comum em 2010, o ano em que deixou a empresa. Em 1979, seu pagamento era somente 16,5 vezes maior, segundo a comissão.
Alguns advogados continuam céticos sobre até que ponto será possível mudar. Nos Estados Unidos, onde os níveis médios de bonificação de executivos são maiores que no Reino Unido, esforços recentes do ato de regulação financeira Dodd-Frank para normatizar esses pagamentos tiveram sucesso limitado.
Pressionados pelos reguladores, bancos nos EUA mudaram uma grande parte do pagamento em remuneração de ações de longo prazo e estabeleceram políticas para recuperar os bônus em caso de grandes perdas.
O ato Dodd-Frank exige que companhias públicas deixem os acionistas votarem sobre os pagamentos para expressar suas opiniões sobre as bonificações por muito anos, mas os votos não são vinculativos.
Mas Deborah também disse estar esperançosa com que o atual debate sobre os pagamentos de executivos poderia ajudar a melhorar o sistema. “Se você não conseguir obter nenhuma mudança agora, quando há um revés econômico, eu não sei quando vai conseguir”, disse.

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