18 de out de 2010

Lula é maior que seu futuro

Por 
PAULO MOREIRA LEITE
 Na revista Época

A popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva bate novo recorde.  Sua popularidade produz uma mistura de inveja e espanto nos adversários e seu comportamento na campanha presidencial continua provocando críticas.

O problema de Lula, na verdade, é que ele não pode disputar o terceiro mandato. Do ponto de vista da vontade popular, ele estaria eleito sem sair de casa. Se fizesse campanha, é possível que em vez de dizer “o Brasil pode mais” a oposição se limitasse a pedir por favor uma vaga no ministério.
Mas a lei não permite que um presidente tente uma segunda reeleição e Lula fica assim: não é candidato mas não quer deixar de fazer o possivel para eleger o nome de sua preferência.  Está errado?
A oposição discute a legalidade de seu comportamento, afirma que ele não respeita as instituições mas qualquer calouro de Ciência Política sabe que há uma questão maior. Quando se recorda que a política é a busca permanente do exercício do poder, é preciso entender que nenhum presidente com 81% de aprovação irá ficar em palácio limpando gavetas à espera do dia de ir embora.  Não conheço presidente tão popular como Lula em parte alguma do mundo — muito menos em fim de mandato — mas a questão não é essa. Até para facilitar a saída do governo, espera-se que um presidente chegue desgastado ao final do mandato. É raro o sujeito ir embora quando só não é aprovado pela turma dos nulos, brancos e dos que não entenderam a pergunta.

Lula desmentiu os adversários que passaram o segundo mandato jurando que pretendia mudar a legislação para concorrer mais uma vez.  Evitou um choque de consequencias imprevisíveis para o país e as instituições — mesmo sem grande poder de voto, seus adversários tem um conhecido poder para promover crises políticas nas cúpulas quando é de seu interesse, não é mesmo?
Muitas pessoas são contra a reeleição em qualquer caso porque ela permite o uso da máquina do Estado para favorecer quem está no poder. Nos Estados Unidos, que inspirou muitas idéias políticas em vigor em nosso país, a reeleição era livre até que Franklin Roosevelt foi eleito uma quarta vez. Considerou-se, então, que era preciso colocar um limite e ficou estabelecido que deveriam ser dois mandatos.
A idéia é que no terceiro mandato abre-se a porta para uma ditadura pessoal. Pessoas respeitáveis pensam assim. Será? Aposto que nem todos os possíveis eleitores de Lula concordam com o veto a sua candidatura. Devem olhar para o horário político e pensar que ele é muito melhor do que os concorrentes.
Francamente: eu acho que o reforço recente da popularidade de Lula deve ter como causa o efeito comparação. O eleitor olhar para seus sucessores e acha que o atual presidente é melhor do que eles. O eleitor está familiarizado com Lula e seu estilo, considera que seu governo deu certo e não quer riscos que uma mudança de escolher um presidente representa. É pura intuição mas eu acho que essa situação tem muita relação com o clima morno da campanha.
Mas não importa. O Brasil não permite o terceiro mandato e tem um presidente com a maior aprovação popular de sua história. Não há o que fazer a não ser assistir ao governo de um presidente que é muito maior do que seu futuro e que não cabe no papel que terá reservado em 1 de janeiro de 2011. Essa é a questão.

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