18 de out de 2010

A história do Mundo VI

Por David Coimbra
A cidade amaldiçoada e os quatro rios do Paraíso

A HISTÓRIA DO MUNDO E O SENTIDO DA VIDA – 6º CAPÍTULO
Os velhos egípcios orgulhavam-se de ser velhos. O grego Heródoto, que enfiou o nariz curioso nas margens do Nilo há 25 séculos, contou que eles se jactavam de ser o povo mais antigo da Terra. É assim a alma dos povos, cada qual com suas vaidades e suas bazófias, os cariocas e suas praias ensolaradas, os russos e sua literatura sombria, os franceses e sua gastronomia sutil, os alemães e sua filosofia profunda, os austríacos e sua música requintada,os gaúchos e… seu pôr-do-sol.
Pois os egípcios acreditavam ser os pioneiros da Civilização. No reinado do faraó Psamético, nos anos 600 antes da nossa era, essa crença era sólida como as paredes das pirâmides. Até que surgiram uns frígios irritantes afirmando que a Frigia, sim, era muito mais antiga. Discute daqui, discute de lá, Psamético decidiu descobrir quem tinha razão através de prova provada. Tomou duas crianças recém-nascidas, de famílias pobres, e as entregou a um pastor com as seguintes instruções: os nenês deveriam ser criados longe de quaisquer outros seres humanos e o pastor jamais, eu disse JAMAIS!, deveria falar uma única palavra diante deles.

O faraó pretendia, desta forma, estabelecer qual seria a primeira palavra que as crianças falariam, assim que deixassem de emitir sons inarticulados. Para garantir a lisura do experimento, Psamético mandou que seus soldados arrancassem as línguas das mulheres que viviam com o pastor, convencido de que a natureza feminina não suportaria permanecer muito tempo em silêncio, no que, aliás, estava tapado de razão. Ter a língua amputada é chato, mas suponho que as mulheres devem ter entendido as necessidades da ciência.
Bem.
Passados dois anos, o pastor notou que, quando abria a porta e entrava na cabana onde estavam alojados os nenês, eles estendiam as mãos e punham-se a gritar:
- Becos! Becos!
A princípio ele não deu muita importância ao fato, mas como as crianças não paravam de repetir becos, becos, beeecos, o pastor procurou o rei e contou-lhe o caso. Psamético chamou os seus sábios, que os reis sempre tinham sábios a assessorá-los, e perguntou-lhes em qual língua existia a palavra “becos” e o que significava. Depois de uma afanosa pesquisa naqueles tempos sem Google, os sábios o informaram que, na língua frigia, becos quer dizer “pão”.
Gol dos frígios.
O faraó, e todos os demais egípcios, frustrados, admitiram que a Frigia era mais antiga.
Só que tem o seguinte:
Não é.
A experiência de Psamético, narrada por Heródoto, não foi muito diferente daquelas pesquisas que os ingleses patrocinam hoje em dia. Os ingleses fazem assim: reúnem 100 mulheres casadas que pintaram o cabelo e outras 100 que não pintaram. Apresentam-lhes um questionário perguntando, basicamente, se traíram ou pensam em trair os respectivos maridos. Ora, todo mundo sabe que uma mulher, quando pinta o cabelo, está tendo ideias.

A cabeça da mulher muda de fora para dentro, isso é fato. 
Logo, as 100 que pintaram os cabelos responderão, todas elas, eu disse TODAS, que traíram ou traem ou talvez traiam seus cônjuges. “A minha vida está tão igual”, miarão. “Preciso fazer algo novo…”. O “novo”, esse, é o vil adultério.
Já as outras, as não-pintadas, dirão que não, que ainda não cogitam de trair os maridos.
Conclusão dos cientistas ingleses: tintura de cabelo causa infidelidade.
O “becos” das criancinhas do rei talvez até significasse “pão” para elas, mas não em frígio e sim na língua dos nenês. O meu filhinho, por exemplo, só falava Abu quando tinha um aninho ou menos. Isso significa que ele é filho de árabe???
Hmm, vou verificar se a mãe dele pintou o cabelo.
Enfim. O fato é que os frígios não são o povo mais antigo da Terra. É verdade que até detêm algumas prerrogativas. Foram eles os primeiros adoradores de Cibele, a deusa-mãe que rivalizou com o cristianismo durante pelo menos 300 anos. O imperador romano Juliano, chamado “o apóstata”, era um ilustre devoto de Cibele. Gore Vidal escreveu um bom romance sobre ele. O título é, exatamente, “Juliano”. Vale a pena ler.
Mesmo assim, repito, não é dos frígios a primazia da antiguidade das civilizações.
O homem foi domesticado pela mulher, em primeiríssimo lugar, provavelmente na Mesopotâmia.
Você sabe, a palavra mesopotâmia vem do grego e é muito fácil de lembrar o que significa. Pense na pizza mezzo calabresa, mezzo portuguesa. O que quer dizer mezzo? Meio. Pense agora no Rio Tamisa, que rasga elegantemente a cidade de Londres. Pois tamis é o mesmo que “rio”, o que equivale a dizer que “Rio Tamisa” é “Rio Rio”.

Bom, então o que significa mesopotâmia?
 “No meio de rios”, ou “entre rios”. Uma terra entre rios, mais ou menos localizada onde hoje se situa o moderno Iraque, se é que o Iraque hoje pode ser chamado de moderno.
Os rios em questão são o Tigre e o Eufrates. A Bíblia informa que havia quatro rios no Paraíso perdido de Adão e Eva: o Tigre e o Eufrates, que ficam bem próximos um do outro, mais o Ganges, na Índia, e o Nilo, no Norte da África.
O Paraíso era enorme, portanto.
Agora é preciso tecer algumas observações a respeito desse capítulo bíblico, o Gênesis, que se arroga ser o contador da história da formação do mundo.
Segundo a tradição judaica, Deus criou a Terra circa quatro mil anos antes de Cristo. Trata-se de uma parábola, naturalmente. Afinal, os cientistas já descobriram que o Big Bang ocorreu há mais ou menos 13,7 bilhões de anos e que o Planeta Terra se formou há 4,6 bilhões de anos.
Durante os primeiros 500 milhões de anos, a Terra era uma bola de fogo e lava derretida. Não havia água, o extremo calor impedia que o vapor se condensasse. As nuvens negras mantinham-se no alto da atmosfera. Mas a Terra, bem como todo o universo, foi se resfriando, e continua se resfriando, e continuará – o universo está ternamente em expansão e esfriamento, lembre-se. Quando ficou frio o suficiente para que a lava endurecesse, formou-se a superfície em que a Scarlet Johansson pisa com o pezinho macio dela. Os cientistas conseguiram descobrir na Groenlândia rochas de 3,8 bilhões de anos de idade. São as mais antigas do planeta. Nessa época, violentas tempestades elétricas desabaram sobre a Terra, as nuvens de vapor começaram a se liquefazer e, durante milhões de anos, choveu.
E choveu.
E choveu.
Os cientistas acreditam que a sopa química dos oceanos primevos, ao ser atingida pelos raios, de alguma maneira causou uma reação que originou as primeiras bactérias. As primeiras formas de vida. Existem fósseis de bactérias de 3,5 bilhões de anos, imagine que bactéria bem velha.
Então, tudo começou.
Só que muito lentamente. Passaram-se bilhões de anos até que os animais fossem formados.O bicho número 1 a sair do mar e habitar o solo, acreditam os cientistas, foi o humilde… tatuzinho. Observe um meio enterrado na areia da praia, da próxima vez que você for a Pinhal: ele é seu tataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataravô. Ou ao menos foi, há uns 460 milhões de anos.
Como esses animais marinhos se reproduziam? Aí é que está. Você já viu peixes transando? Uma noite de loucuras e prazeres inenarráveis entre peixes acontece assim: a peixa louca de desejo deposita os ovos em algum lugar e os peixos garanhões vão lá e espalham esperma em cima. E terminou a farra. Consummatum est. Hora do repouso do guerreiro.
Se dependêssemos dos peixes, até hoje estaríamos fazendo sexo desse jeito. Nada divertido.
Mas um dia os répteis evoluíram e passaram a depositar os espermatozóides DENTRO das fêmeas, e não fora, a fim de fertilizar os óvulos. Ou seja: os répteis são responsáveis pelo sexo como nós o conhecemos e, por consequência, pela psicanálise, pela minissaia e pelas calcinhas de renda, por quase toda música e literatura, pela escova progressiva, pelo bronzeamento artificial, pelas calças legging e por muitas das minhas noites de dor.
Mas ainda que a Bíblia não faça referência a essas verdades comprovadas pela ciência, ela não está de todo errada. Ao contrário: as lendas do Gênesis dão indícios até bem precisos de como se formou não o ser humano, Adão e Eva, blábláblá, mas como se formou a Civilização. Inclusive geograficamente – aquilo dos quatro rios do Paraíso, por exemplo. Ocorre que as primeiras cidades surgiram exatamente naquela região. Foi em vales fluviais da Índia, do Norte da África e do Oriente Médio que os homens se estabeleceram originalmente e fundaram as primeiras cidades.

Eis aí outro ponto essencial dessa história:
 a Civilização existe não com exclusividade na cidade, mas, no mínimo, em torno da cidade e por causa dela. “Civilização”, a palavra, vem do latim, “civitas”, que significa… “cidade”.
O que não quer dizer que a Civilização seja algo intrinsecamente positivo. O modo de vida oposto à Civilização é o caçador e coletor. Noventa e oito por cento da existência humana sobre a Terra foi caçadora e coletora. Ainda hoje há povos que são caçadores e coletores. A mudança ocorreu, como já disse, por causa da mulher. A mulher é a rainha da Civilização. Agora, isso é bom? Tenho dúvidas…
O Gênesis não as tem. Para o Gênesis, a Civilização não é algo positivo. E esse é outro dos indícios que a Bíblia oferece a respeito da formação desta mesma Civilização. Porque Adão e Eva, quando viviam no Paraíso, eram caçadores e coletores. Sobreviviam colhendo os frutos das árvores, menos o da macieira, e se servindo dos animais. Não usavam roupas, não sentiam vergonha. Ou seja: ninguém era de ninguém! O Paraíso era, bem, um paraíso.
Então Eva, a mulher original representando todas as mulheres originais, convenceu Adão, o homem original representando todos os homens originais, a provar o fruto proibido. O que significa essa imagem? Que a mulher convenceu o homem a deixar de ser caçador e coletor e passar para a agricultura e a criação de animais.
Deus não aprovou. A agricultura não é um modo de vida natural. Fere a terra, cansa-a e finalmente a exaure. Por tal crime, o Senhor decidiu punir homens e mulheres. Qual foi a pena? Amaldiçoou-os a ganhar a vida com o trabalho. Isto é, com a agricultura e o pastoreio.
Era o dramático fim da vida caçadora e coletora.
Os filhos de Adão e Eva, coitados, eram exatamente isso: Abel, um pastor; Caim, um agricultor. Deus gostava ainda menos dos agricultores – como já disse, a agricultura agride a terra. Assim, Deus preferia Abel. O que terminou sendo a causa do primeiro homicídio, do anátema lançado sobre Caim e da sua fuga pelo mundo. E o que Caim fazia pela Terra afora? Fundava cidades. Construía a Civilização que a sua mãe tanto quis. Todos nós descendemos de Caim.
Uma palavrinha acerca da fundação de cidades. Isso ocorreu de preferência na proximidade dos rios. É à margem deles que os homens, de praxe, se estabelecem e vivem. Porque não há nada de que o ser humano necessite mais do que água. Três quartas partes do corpo do homem (e do sinuoso e macio corpo da mulher também) são compostos por água. A mesma proporção tem a composição do planeta. Não é que a água seja o bem mais precioso da Terra; a água talvez seja o único bem INDISPENSÁVEL da Terra. Pense nisso quando estiver lavando o carro.
Mas, como ia dizendo, o fato é que a Mesopotâmia é reconhecida também pelos hebreus do Pentateuco como um dos sítios originais da Humanidade civilizada. Há indícios velhos de 12 mil anos de sociedades formadas na faixa de terra entre o Tigre e o Eufrates.
Warka é mencionada no Gênesis como Ereque, cidade fundada por Nemrod, filho de Cus, que por sua vez era filho de Cam, que era um dos três filhos de Noé. Esse bisneto de Noé, Nemrod, foi, segundo a Bíblia, “o primeiro homem poderoso da Terra”. Warka, a cidade fundada por ele, é chamada de “A Mãe das Cidades”.
Mas houve outras antes dela. Alguns cientistas dizem que Eridu é ainda mais antiga.
Agora, a cidade ainda viva, que seguiu habitada milênio após milênio, é Jericó, na Palestina. Os cientistas não chegaram a um acordo sobre o primeiro povo que a ergueu do chão. Durante 11 mil anos, as raças mais diversas se sucederam naquele lugar, vencendo até uma maldição bíblica.
Essa história aconteceu assim, dois pontos:
Mais ou menos entre 1.300 a 1.200 anos antes de Cristo, Josué chegou às cercanias de Jericó com os hebreus que haviam fugido do Egito, atravessado o Mar Vermelho a pé e vagado 40 anos no deserto, tudo aquilo que você já sabe por ter assistido a “Os 10 Mandamentos”, com Charlton Heston no papel de Moisés, na Sessão da Tarde.

Em hebraico, Josué significa “Deus é salvação”.
 Talvez tenha sido. Mas para os hebreus, não para os cananeus que viviam na chamada “Terra de Leite e Mel”.
Josué foi o sucessor de Moisés. Era um líder militar competente, pelo que se pode deduzir. Enviou espiões às cidades cananéias a fim de levantar dados para a campanha de invasão que pretendia liderar. Entre outras informações, os emissários apuraram que Jericó era guarnecida por duas muralhas: a externa com dois metros de espessura e a interna com três metros e meio.

Uma fortaleza inexpugnável.
Seria impossível de derrotá-la, se Ele, o próprio Senhor, não tomasse partido. Um anjo com a espada desembainhada na mão apresentou-se a Josué como “chefe do exército de Iahweh”, que é um emprego muito bom. O anjo garantiu que Josué teria ajuda e passou a orientá-lo.
As instruções que vinham do Alto foram as seguintes: todas as manhãs, os hebreus deveriam dar uma volta em silêncio em torno da cidade, com sete sacerdotes a frente deles e da Arca da Aliança. Esses sete padres estariam soprando sete trombetas de chifre de carneiro. Fariam isso durante seis dias. No sétimo, aumentariam a marcha silente para sete voltas. Ao cabo da última volta, as trombetas fariam um toque longo e, a um sinal de Josué, todos os israelitas gritariam a plenos pulmões.
Os hebreus obedeceram direitinho e, depois de berrarem selvagemente, AAAAAAAAHHHHHHH!!!, as muralhas, apavoradas, desabaram por terra.
Os hebreus invadiram a cidade e, seguindo as ordens de Jeová, “passaram a fio de espada tudo o que nela vivia, homens, mulheres, velhos e crianças, e até mesmo bois, ovelhas e jumentos”. Como se vê, Deus, por algum motivo, não gostava do pessoal de Jericó. Os únicos sobreviventes foram uma prostituta chamada Raab e sua família, que esconderam em sua casa os espiões de Josué. Finalmente, os soldados pilharam e incendiaram a cidade e puseram todos os prédios abaixo. Como arremate, Josué lançou-lhe um anátema:
“Maldito seja diante do Senhor quem tentar reconstruir a cidade de Jericó! Será ao preço do seu primogênito que lhe lançará os primeiros fundamentos, e será à custa do último dos seus filhos que lhe porá as portas!”
Terrível ameaça. Mas, ainda assim, Jericó foi reconstruída. Sucessivamente os homens lhe lançaram fundamentos e lhe puseram portas. E continua de pé, como um testemunho de milênios de barbárie do homem civilizado.
Há mais a contar sobre as velhas cidades do Oriente Próximo e também, é claro, dos grandes egípcios, acerca dos quais tanto prometi contar e tão pouco cumpri. Mas vamos deixar para o próximo capítulo de A História do Mundo, que, prometo, virá mais cedo do que se espera.

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