14 de out de 2010

A cultura da valoração do consumismo

Do cultura do controle

A maldição do colar

     Na rua quase deserta de um bairro pobre, passeia uma moça com um colar de diamantes, cuja função ornamental não é capaz de justificar minimamente o valor que a sua sociedade convenceu-se de que representa. A jóia verdadeira é, assim como o crime, uma convenção social: existe, enquanto jóia de grande valor, apenas na medida em que muitas pessoas atribuem relevância à distinção entre verdadeiro e falso. Se o colar valesse pelo que aparenta, as boas falsificações fariam seu preço cair ao nível da bagatela, e a mulher dessa história não seria imprudente na sua caminhada. 
     Cruzando o seu caminho, há um sujeito que espreita com cobiça a jóia. Está tentado a cometer o crime de possuí-la, com o uso de violência se necessário. Para fazer isso, ele precisará, por óbvio, quebrar uma regra criminal. Por isso, se o fizer, muitos dirão que ele foi “mal socializado” nas normas de sua cultura, pois orienta sua conduta por um código cultural paralelo, à margem dos valores que lhe deveriam ter sido inculcados. 
     Mas é falacioso crer que seu roubo significará uma falta de adesão às normas sociais. Ao contrário, se ele não aderisse à norma social que atribui um valor metafísico aquela jóia “verdadeira”, ou se não aderisse à norma social de que ter coisas assim valiosas é bom e útil, ele não se sentiria tentado pela ostentação do símbolo valioso. A tentação de que ele sofre é da mesma natureza que a dos possuidores legitimados de jóias: deriva da crença de que as coisas têm sempre preço e que uma jóia verdadeira vale mais do que seus simulacros idênticos. 
       A vítima e seu algoz só viverão esses papéis porque ambos reconhecem as normas sociais que inflacionam o valor dos diamantes verdadeiros: ambos foram socializados na mesma cultura e ambos transgrediram regras: de prudência, no caso dela; criminal no caso de ele vir a roubá-la. Em outras palavras: foi o compartilhamento de valores culturais que os colocou nessa lastimável situação. 
       A moça e sua jóia, assim como a criança e seu tênis “de marca” partilham das mesmas normas que o criminoso e o pivete que os ameaçam: crêem que aqueles símbolos são quase mágicos e que justificam comportamentos para além do razoável para obtê-los. È o fetiche do materialismo que transforma coisas em objetos de adoração sacrificial, pelos quais vale a pena endividar-se, desonrar-se, levar um tiro ou morrer. Só após um desfecho trágico é que o torpor fantasmático cederá e todos os personagens concluirão que, feitos os índios da anedota eurocêntrica, estavam entregando sua liberdade em troca de espelhinhos e adereços vistosos. A mãe da moça no dia de finados, a mãe do moço no dia de visitas amaldiçoam, cada uma a seu modo, o mesmo colar e seu poder de entrelaçar duas biografias tão diferentes, de achar algo em comum para ligar a jovem princesinha ao ogro de periferia. 
    Essa é uma das contradições estruturais de nossas sociedades desiguais: para convencer os mais ricos a consumirem símbolos caros (Ferraris, diamantes etc.) é preciso que tais símbolos sejam reverenciados pelos que não podem obtê-los: o que gerará uma tensão entre os meios disponíveis para possuí-los e a vontade inflacionada pelo fetiche publicitário. Que, em alguns casos, isso gere um ou outro crime (de furto de uma Ferrari, por exemplo), ainda é tido como preferível a ter que deixar de utilizar o veículo-jóia, ou ter que disfarçá-lo de um carro meramente funcional. No fundo, a cobiça dos outros, do honesto e do potencial ladrão só reforçam o sonho Ferrari, assim como o número de admiradores parece melhorar a performance de um ídolo. 
     Bem pensado, não há um déficit e sim uma socialização exagerada, radical, na conduta do ladrão cobiçoso: ele tem sede de possuir o que todos – de seus amigos a moça da propaganda – disseram que lhe faria sentir-se melhor, mais bonito, mais poderoso, menos ogro. Assim como o guerrilheiro, o fundamentalista e o crente fanático, ele aderiu de forma tão exagerada aos fins de sua cultura que só consegue ver como detalhes a opção dos meios disponíveis para obtê-los. 
   Na realidade de hoje, o bandido patrimonial e o consumista não representam falhas no processo de socialização, mas seus mais estrondosos sucessos. Graças a eles, a economia gira, empregos são gerados, seguranças são contratados, alarmes e armas sobem de preço, shoppings substituem as antigas praças e morar em prédios torna-se um atrativo imobiliário. No fundo, esses personagens ditam as normas do mundo. Não é sem-razão que para cada milhão de horas de espaço midiático concedido a celebridades consumistas e bandidos desalmados, dedicam-se quinze minutos a algum cientista, algum literato ou a alguma alma dedicada ao bem do próximo, com suas falas cheias de utilidades aborrecidas e suas vidinhas “alternativas”, próprias de quem não se socializou como deveria. 
(...)
Sandro Sell

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