26 de out de 2010

A continuidade da dependência do petróleo como matriz energética

Do Brasilianas.org via blog do Nassif
Por Lilian Milena
Duas décadas de estudos e pesquisas não serão suficientes para eliminar a dependência humana das fontes de origem fóssil. O petróleo continuará sendo a principal matriz energética em 2030, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).
Em 2007, 87% da matriz mundial era composta por petróleo, gás natural e carvão mineral, restando às fontes renováveis a participação de 13% sobre a oferta. Em 2030, o consumo será o dobro do atual, sendo 86% da matriz formada por fontes fósseis e apenas 14% pelos demais insumos.
A questão foi um dos temas centrais do 3º Fórum de Debates Brasilianas.org, que tratou da Sustentabilidade. Luis Cesar Stano, gerente de Desenvolvimento em SMS e Eficiência Energética da Petrobras, destacou que no Brasil não será diferente. Em 2030, o consumo energético do país será duas vezes maior, e a participação das fontes renováveis (hidroeletricidade, biocombustíveis e outros) se manterá em 46% da matriz.

Surge desse cenário duas preocupações: a primeira, relacionada a redução dos gases de efeito-estufa, já que existe consenso de que a ciência não será capaz de criar um insumo sustentável com qualidade equivalente ao petróleo a ponto de tornar a humanidade menos dependente de fontes fósseis, pelo menos nos próximos vinte anos. A segunda, é o forte declínio da produção de petróleo previsto pela AIE.
Em duas décadas, a demanda global por petróleo deverá atingir 107 milhões de barris por dia (MM bpd), ante cerca de 84 MM bpd produzidos em 2010. Em 2030 as reservas mundiais disponíveis serão equivalentes a 32% das necessidades.
O aumento da eficiência energética é apontado por Stano como uma das saídas mais estudadas no mundo que, conjugada ao uso de novas fontes, ajudará a atender as demandas. A Europa conseguiu reduzir seu consumo em 50% nos últimos 30 anos a partir da eficiência energética, que pode ser conseguida tanto nos processos de produção e transmissão quanto no uso final da matriz – opção de lâmpadas incandescentes, eletrodomésticos com tecnologia de consumo menor de energia elétrica.
Comparação Internacional
Nos Estados Unidos a eficiência energética é de aproximadamente 39%, na China, de 31%, e na Índia 29% - ou seja, mais de 50% da energia queimada nesses países não chega a ser utilizada efetivamente, tendo em vista que a principal matriz de energia elétrica deles é o carvão mineral.
Marco Aurélio Carvalho, diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE), explica que os números no Brasil não são muito diferentes. O total de perdas na matriz energética atinge 63%, logo o aproveitamento brasileiro é de 37%. "Isso, dentro do conceito que chamamos 'do poço a roda'. Ou seja, que vem desde o processo de produção, transmissão, até durante o uso pelo consumidor", completa.
O porta-voz do INEE explica que já existem processos capazes de reduzir substancialmente os desperdícios com o uso de cogeração, modalidade que permite a geração de energia com rejeitos de outros processos produtivos, como biogás e térmicas de bagaço de cana-de-açúcar.
Veículos
Usando como exemplo o caso dos veículos, Carvalho explica que o rendimento energético dos motores movidos a gasolina, e até mesmo os flex, é de apenas 30%. Boa parte dos 70% restantes é perdida na forma de calor. Mas, se o combustível usado para mover o motor fosse à energia elétrica, o aproveitamento dobraria.
O diretor do INEE diz que, em se tratando de eficiência energética, os modelos híbridos (carros que são carregados eletricamente a combustão interna do motor, movido por gasolina) compensam menos que os 100% elétricos. Em contrapartida, quando se trata de custo/benefício, os híbridos são melhores, pois os totalmente elétricos ainda precisam ser melhorados tecnologicamente para saírem das fábricas como produto competitivo – as baterias são pesadas, resultando na queda de velocidade, e o tempo para recarregá-las é muito elevado (8 horas em média).
Segundo Cardozo, já existem modelos de híbridos com desempenho de 40 a 100 quilômetros por litro de gasolina maior comparado aos modelos convencionais, testados na Europa e Estados Unidos.
Eficiência
O porta-voz da INEE destaca que há espaço para expandir significativamente a eficiência energética em vários setores, a exemplo das usinas de etanol. "Existem contingentes de caldeiras de baixa pressão, do nível de 22 BAR (unidade de pressão energética) em funcionamento nas usinas, sendo que já são fabricadas caldeiras operando a 90 BAR, portanto muito mais eficientes".
A produção de etanol no Brasil já é considerada eficiente pelo fato de aproveitar o bagaço da cana de açúcar – dispensável para produção do etanol de primeira geração – como combustível das caldeiras que produzem o biocombustível. O excedente energético dessa operação é vendido às redes de linha de transmissão de energia elétrica ou utilizado pela própria usina.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no Plano Decenal de Energia (PDE) 2010-2019, estima que o país poderá aumentar a eficiência em 12,5% no consumo atual de petróleo – 50% dessa economia se dará no setor industrial e 41% no setor de transporte.
Propostas
O Conselho Mundial de Energia, no relatório "Energy Efficiency: A Recipe for Success" (2010), verificou que 30% dos 90 países pesquisados realizam atualmente a redução de impostos sobre equipamentos de eficiência energética ou investimentos para minimizar os desperdícios.
O uso de lâmpada florescente compacta é a ação mais incentivada fora da OCDE. Alguns países europeus optaram pela redução do IVA (imposto sobre valor acrescido ou agregado), dos produtos de melhor eficiência energética. Outra prática bastante difundida é o incentivo fiscal as empresas que assumem compromissos de reduzir o consumo de energia, logo, suas emissões de CO2.
Dentre as medidas brasileiras está a identificação do nível de eficiência de eletrodomésticos pelo selo Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica). Houve também, durante o período de isenção do IPI a eletrodomésticos, redução maior de impostos para produtos com melhor eficiência energética.
Por outro lado, Cardozo critica a falta de incentivos fiscais à produção de veículos elétricos. "Atualmente os impostos que incidem sobre a produção de um carro movido a energia elétrica prejudicam significativamente a competitividade desses modelos no mercado", avalia.
O estudo "Lighting the way: Toward a Sustainable Energy Future", publicado em 2007, e coordenado por José Goldemberg, cientista físico e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, junto com o prêmio Nobel Steven Chu, aponta que o crescimento mundial/ano da quantidade de energia produzida por fontes renováveis é de aproximadamente 6%, ao passo que o aumento do consumo de energia de combustíveis fósseis é de apenas 2% ao ano.
Mesmo assim, o trabalho, elaborado por 15 cientistas da InterAcademy Cauncil, reitera que as energias renováveis só vão passar a contribuir efetivamente para a matriz mundial em trinta anos.
O etanol brasileiro é colocado como uma opção sustentável para a frota de veículos. Em três décadas o país conseguiu aumentar de três mil para 6 mil litros por hectare a produção do biocombustível.
A obtenção do biocombustível da cana-de-açúcar que consiste na fermentação do caldo extraído da planta, recebeu o nome de etanol da primeira geração, e está próxima do aproveitamento máximo de produtividade.
Pesquisas do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) calculam para um rendimento médio de 91% nas usinas que deve chegar a praticamente 100%, nos próximos anos, com a melhora do processo fermentativo – estágio onde mais ocorrem perdas.
A segunda geração de etanol está em processo de aprimoramento. Trata-se de produzir combustível a partir de resíduos vegetais, ricos em celulose, como o bagaço da cana-de-açúcar. Estima-se que uma destilaria que produz cerca de 1 milhão de litros de etanol por dia, com o caldo da cana, pode gerar mais 150 mil litros de etanol a partir do bagaço.
O cientista norte-americano Lee Lynd coordena estudos de uma técnica que possibilita a produção de etanol desses resíduos em uma única fase, e não em quatro, como usualmente. O processo, chamado de bioprocessamento consolidado (CBP, na sigla em inglês) é feito por microorganismos geneticamente modificados que produzem anaerobicamente substâncias enzimáticas com potencial mais avançado que as enzimas aplicadas em outros processos.
O pesquisador estima que a partir da segunda geração o mundo terá condições de atender até 25% da frota de veículos. "A cana, francamente, tem mais mérito em relação a outras culturas. E a biomassa celulósica é uma matéria prima bastante promissora", diz.
A cultura do Brasil se destaca por ser mais sustentável em relação às espécies plantadas com a mesma finalidade pelo mundo – têm baixas emissões de gases estufa, elevada produção de combustível por hectares e menores impactos sobre a poluição da água.

Nenhum comentário:

Postar um comentário