11 de out de 2010

Valor e as Eleições


Do blog na prática a teoria é outra

O melhor caderno de fim de semana que vejo faz muito tempo é o Eu&Fim de Semana do Valor Econômico de ontem. A edição de fim de semana fica à venda até domingo, eu acho, quem puder comprar, aconselho. Não achei aberta para não assinantes, de modo que vai ter que rolar uma digitação aqui.
O caderno traz um artigo da Argelina Cheibub Figueiredo que é muito bom, contrariando a tese de que brasileiro não sabe votar,e argumentando que o eleitorado tem dado respostas bastante razoáveis ao que os governos vêm fazendo. Esse eu vou ver se acho reproduzido em algum lugar e colo aqui depois. Se interessar a alguém, digo aqui que eu fui monitor da Argelina em Teoria do Estado lá na UNICAMP. Não interessava? Mal aí.
Tem também uma entrevista com a Marta Arretche, Cientista Política da USP, que resume bem o que eu acho do resultado da eleição (pra vocês verem que eu não sou tão fora de compasso com o mainstream da CP):
Exagera-se a idéia de que o eleitor votou na Dilma porque o Lula mandou. O país vive uma situação de crescimento econômico, aumento de renda, formalização de emprego. É compreensível que o eleitor queira mantê-la. Dilma é vista como alguém que participou do governo responsável por isso. O voto no bem-estar tem sido decisivo: foi assim que Fernando Henrique se elegeu em 1998. Não creio que as alterações de humor do presidente tenham tanto peso. Apesar de o eleitorado ser chamado a votar numa pessoa, o voto é a favor ou contra uma situação.
Também acho isso, por isso continuo cravando vitória de Dilma. Além da torcida, acho que isso é o que vai acontecer.
O mais legal do caderno, que justifica guardar em casa depois de ler, é a entrevista com o Gabriel Cohn, autor de um dos melhores livros sobre Weber que existem, o Crítica e Resignação, provavelmente o melhor livro de teoria escrito no Brasil desde sempre. Se entendi direito, ele vota no Serra, como deve votar boa parte da Escola da USP, por solidariedade de geração (acho eu). Mas o que interessa são as análises. Por exemplo, sobre a ida da eleição para o segundo turno:
Não haver segundo turno numa eleição deste tipo é uma aberração. Quem insistiu em levantar o fantasma do primeiro turno não foi Dilma, mas Serra, por estratégia eleitoral. Acabou pegando, porque criou uma expectativa artificial. Quem disse que o PT era obrigado a ganhar no primeiro turno?
(…)
O triângulo formado pelos três candidatos era extraordinário. Se eles estivessem num debate denso, teria sido uma maravilha. Se não fizeram isso, porque fariam agora? O jogo vai ser jogado debaixo da mesa. (…) Acredito que o efeito seja negativo sobre nosso precioso processo de educação política. A sucessão anterior, de Fernando Henrique a Lula, foi muito civilizada. Desta vez, corremos o risco de algo que é ruim, porque reforça o lado sombrio da adesão a Marina, a posição não-política.
Essa opinião sobre a eleição ter ido para o segundo turno é compartilhada pela Arretche:
Ainda estamos sob o impacto da reversão de expectativas. Embora a diferença seja grande em favor de Dilma, parece que foi o Serra que ganhou. É mais frequente que aquele que sai com folga do primeiro turno vença no segundo.
O que seria o tal “lado sombrio” do voto em Marina de que fala o Cohn?
O programa de Marina – e é Marina, não o PV – tem um aspecto pouco político. Uma mistura de principismo com religião, com apelo para setores autoritários. (…) No longo prazo, o ambientalismo é questão fundamental, e Marina perdeu aoportunidade histórica de colocar a questão no debate. O que acabou pesando foi o lado “sombrio” que a apoiou. O lado “radioso” são os eleitores preocupados com questões de longo prazo. O sombrio é a desqualificação, a desmontagem do adversário, que pesou sobre Dilma e deixou Serra incólume.
Cohn acha, ainda, que o lado “sombrio” do voto em Marina deve ir para Serra, e o “radioso” “não gosta de nenhum dos dois, mas Dilma tem mais chance de os capturar”. Eu concordo com isso, mas acho que, quantitativamente, ele subestima o número de “radiosos”no eleitorado da Marina.
É difícil saber com os dados disponíveis, mas acho que o Antonio Luiz Costa, da Carta Capital, está mais certo do que errado (veja aqui): o eleitorado de Marina é fundamentalmente centrista, e é hora de fazer acordo com o centro. Se funcionar, o mecanismo de dois turnos terá feito exatamente o que ele foi pensado para fazer. Vou escrever para isso em post próximo.
E, fechando a série, a entrevista com o Abrucio, certamente um dos cientistas políticos mais importantes do Brasil (queria muito achar “Os Barões da Federação” para comprar). A entrevista se concentra no fator Marina Silva. O diagnóstico do Abrucio sobre porque a Marina interessaria a neutralidade é bem parecido com o meu:
Se ela, ou o partido, se inclinar para um dos candidatos, o desastre é para a própria Marina. Porque ela se construiu como terceira via mais do que como candidata da agenda ambiental. Se ela apóia qualquer dos candidatos, perde essa identidade e seus eleitores. E nada garante que o candidato realize no governo o que garantiu na eleição. O PV não existe no Congresso, não tem o menor poder de pressão. Além disso, ambos os candidatos têm em suas bases membros da bancada ruralista.
É o que eu acho. E a estimativa dele para o voto marineiro é a seguinte:
É um voto muito volátil [NPTO:isso é o fundamental, eu acho]. Foi um voto que migrou entre Dilma, a indecisão, Marina. A migração só deve se definir ao fim do segundo turno. Dilma deve ter pelo menos 20% e Serra 30%. Os outros 50% só vão se definir ao fim. Ou seja, a campanha fará diferença para colher esses eleitores. Exemplos: no Nordeste, no Rio e em Brasília, onde Dilma vai ter força grande de campanha no segundo turno, e onde há ua rejeição forte a Serra, é provável que os eleitores da Marina, se a campanha governista for boa, migrem para a Dilma. Em São Paulo, Minas Gerais e o Sul, tendem a ficar com Serra, se ele fizer uma boa campanha. Se for assim, cada um deve ficar com praticamente metade dos votos de Marina. O discurso vencedor para Dilma seria associar estritamente Serra ao governo Fernando Henrique.
Supondo neutralidade da parte da Marina (se ela fechar com a Dilma, acabou), eu acho que também vai ser mais ou menos metade pra cada um. No Datafolha de hoje, ficou mais ou menos um terço pra Dilma e dois terços para o Serra, mas esses votos aí são perfeitamente viráveis.
A propósito, reclamei da campanha na TV que enfatizou o tema do aborto (aquelas mulheres grávidas eram as ex-namoradas do Índio? Ou eram frutos dos eventos narrados na série “Serra Comedor”? Aquele cabeludo no fundo era o Damião?), mas o meme do “voto em mulher” da Dilma me parece na mosca.
Terminando com duas observações que contrariam o pessoal mais assustado: acho que o Datafolha nos deu um bom resultado, e acho que a campanha, até agora, está bem conduzida no segundo turno.

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