18 de out de 2010

A história do Mundo VII

Por David Coimbra

Como foram inventadas as palavras

Tempos atrás conheci um cara que era professor de surdos. Ele me contou algo sobre o qual nunca havia pensado: que, para um surdo, é MUITO MAIS DIFÍCIL aprender a ler e a escrever do que para quem ouve bem. Revelou-me, o professor, que não raro um surdo atravessa a existência como analfabeto absoluto.
A informação a princípio me deixou perplexo. Afinal, a leitura é um exercício silencioso. Você não precisa falar ou ouvir para ler. Nem deve. A concentração necessária à boa leitura faz-se na paz e na quietude.
Assim, eu imaginava que os livros eram um refúgio dourado, uma ilha aventurosa para quem não podia ouvir. Ledo ivo engano. Os livros são desafios renhidos para quem tem deficiência auditiva.

Por quê???
Porque nosso sistema de escrita é fonético. Quer dizer: cada letra representa um som. A palavra escrita “casa” reproduz simbolicamente os sons pronunciados: “ca… sa”.
O problema é que, para quem nunca ouviu este som, a palavra “casa” não significa nada. Não passa de um desenho: uma meia-lua crescente, “C”, contígua a uma pequena torre, “A”, grudada a uma serpente, “S”, pegada a outra torre, “A”. Agora, se eu desenhar um quadradinho com um triângulo em cima, todos vão entender que estou representando uma casa.
Um surdo de nascença, para aprender a ler, tem de DECORAR todas as palavras. Você percebe como isso é complexo? Se eu escrever, por exemplo, fuquifúqui, lóqui, extradular, aiam e triquetrique-rolimã-blimblim, que são palavras típicas do dialeto porto-alegrense mas que não existem na língua portuguesa, se eu escrever qualquer um desses termos, um surdo, que decorou as palavras, não compreenderá do que se trata. Mas um carioca que jamais esteve nesses pagos meridionais e que ouvem bem irá deduzir o significado das palavras pelo som:
– Eles fizeram fuquifúqui.
– Tu é um baita dum lóqui.
– E aiam? Tudo tri?
– Sim, tudo triquetrique-rolimã-blimblim.
Nós escrevemos os SONS que falamos, entende?
Suponho que um surdo tenha mais facilidade em ler em chinês. Afinal, a escrita chinesa é pictográfica. Os chineses precisam decorar o significado de cada desenho, que pode representar uma ideia, um objeto e até um sentimento. Não é à toa que há mais de 40 mil caracteres chineses. Porque há mais de 40 mil coisas no mundo para serem expressas.
Uma pessoa pode não saber falar uma única palavra em chinês e ainda assim pode saber escrever e ler com fluência em chinês.
Da mesma forma, alguém que fala chinês desde pequeninho pode saber falar e escrever em todas as línguas ocidentais, mas ser analfabeto em chinês.
Não é uma loucura isso?

A nossa escrita, portanto, é auditiva.
 Você “ouve” o que lê.
A dos chineses é visual. Eles veem o que leem.
Os chineses angariaram fama de possuir uma cultura milenar avançadíssima, mas nesse particular perdem de longe para as demais culturas. Um alfabeto que reproduz sons é muito mais prático, simples e inteligente do que um que tenta imitar imagens.
Mas como a Humanidade chegou essa conclusão? Como foram inventadas as palavras?
É aí que entram os sumérios.
Os sumérios foram um povo criativo. Por volta de 4 mil anos antes de Cristo, pouco mais, pouco menos, um deles teve uma ideia genial que, como todas as ideias geniais, gerou muitas outras ideias geniais. Esse sumério inteligente e industrioso, o que ele inventou foi…
… você acha que é “a escrita”, mas está errado. O que o sumério inteligente e industrioso inventou foi…
… a irrigação!
Ele construiu canais para desviar as águas do Tigre e do Eufrates e, assim, não apenas domou as enchentes periódicas desses rios como garantiu água em abundância para as suas plantações, melhorando-lhes o rendimento.
Água. Lembra do que escrevi páginas atrás? A vida se move em torno da água.
Bem. Os vizinhos do nosso amigo inteligente e industrioso, admirando-lhe a prosperidade, o imitaram, e logo toda aquela região foi rasgada por canais, e a água fez verdejarem as plantações. O excedente agrícola liberou alguns homens do exaustivo trabalho no campo. Homens com mais tempo livre têm mais tempo para fazer bobagem, sim, mas também têm mais tempo para pensar. Esses pensadores começaram a PLANEJAR a produção.Inventaram instrumentos para medir as variações dos terrenos e o fluxo das águas e, desta forma, aperfeiçoaram a matemática. Inventaram o arado e, desta forma, propiciaram mais tempo a outros homens, que, por sua vez, dedicaram-se a organizar a comunidade: eles perceberam que, juntos, produziam cada vez mais e trabalhavam cada vez menos.
Os homens, reunidos em comunidades, entenderam que era preciso doar parte de seus recursos para que fossem feitas obras que beneficiassem toda a coletividade. Como estradas, por exemplo. Ou canais de irrigação que passassem por várias propriedades.

Assim foram criados os impostos.
Como havia excedente de produção, os sumérios tomavam o que lhes sobrava e trocavam com estrangeiros por produtos que não existiam em suas terras.
Assim foi criado o comércio.
Porém, outro problema os afligia: como registrar as compras e as vendas, as quantidades de bens estocados e o montante dos impostos pago por cada cidadão?
Arrá! Agora chegamos lá.
Assim foi criada a escrita.
Os sumérios, ao inventarem a escrita, não pretendiam tecer romances, não queriam contar histórias. O objetivo deles era não perder dinheiro.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro, o mundo freme pelo dinheiro desde antes de o dinheiro ser inventado. Mas a ânsia pelo dinheiro também produz nobres resultados.

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