28 de jun de 2011

A Grécia na economia da irracionalidade

|Por Paulo Moreira Leite
Três anos depois do colapso de 2008, que jogou o mundo em sua pior crise em 80 anos, volta-se a uma situação de irracionalidade explícita na economia dos países desenvolvidos.
As projeções que chegaram a apontar para uma recuperação e até uma retomada do crescimento no centro do capitalismo foram abandonadas.
Analistas influentes anunciam que, depois de patinar sem nada produzir de muito emocionante, a economia americana pode cair em recessão a partir de 2012.
O principal sintoma dessa situação de risco próximo, contudo, encontra-se na  Europa.
Aguarda-se para a semana que vem a aprovação de um novo pacote financeiro de 120 bilhões de euros que em teoria deveriam ajudar a Grecia. Em tom grave, fala-se em patriotismo, espírito cívico.
Uma avaliação mais atenta da encenação de autoridades economicas do Velho Mundo informa que tudo não passa de fingimento.
É o segundo pacote destinado à Grecia  em um ano. Depois do empréstimo anterior, a situação apenas piorou. Todos os números são mais preocupantes hoje do que há 12 meses. Até o déficit público agravou-se. Não há motivo para se acreditar que o segundo plano será melhor do que o primeiro. Ninguém acredita, aliás.
Publicações respeitáveis pelo sua capacidade de apurar informações qualificadas, como Economist, Financial Times, New York Times, consideram que dificilmente a Grécia será capaz de escapar de um calote em suas dívidas. A maioria acredita que é só uma questão de tempo e de ritmo.

Martin Wolf, um dos mais influentes colunistas de economia do planeta, fez uma analise minuciosa do novo pacote grego num artigo recente publicado originalmente pelo Financial Times. Com muita boa vontade, Wolf avaliou os quatro principais argumentos que sustentam que o plano poderia dar certo. Mostrou sua inconsistencia e pouca validade.
Wolf ainda observou que há um componente imoral neste plano, que o torna parecido com aquele tipo de empréstimo que os países quebrados da América Latina contrairam nos anos 80 e 90 — que só contribuiram para agravar a crise dos devedores e enriquecer o bolso dos credores.
Vamos combinar: a Grécia tem uma dívida que equivalente a 150% da riqueza do país. Não é uma conta fácil de pagar. Não se imagina que possa ser saldada sem sacrifícios. A questão — mais uma vez — é saber de onde virá o dinheiro e para onde ele vai.
O plano é irracional porque não irá salvar a Grécia  nem pretende fazer isso. Sua idéia é  salvar os bancos credores, boa parte alemães, com o sacrifício da população grega. São os acionistas dos grandes bancos europeus, que emprestaram dinheiro para a os cidadãos de um dos países mais pobres da Europa financiar seu consumo, seu crescimento e seu relativo bem-estar — e agora não querem nem ouvir falar em arcar com suas próprias decisões.
Durante anos a população dos países pobres da Europa foi cortejada como a salvação da lavoura para instituições em busca desesperada por novos clientes. Havia uma razão especial para isso. Em anos recentes a maioria da população alemã viveu uma situação de aperto nos salários. Os trabalhadores raramente receberam aumentos reais.
Em busca de novos negócios, os bancos passaram a investir fora do país, oferecendo empréstimos de alto risco para gregos — e também para espanhois, portugueses, irlandeses. Quando ocorreu o que era previsível, estes clientes passaram a ser encarados demagogicamente como aproveitadores, preguiçosos e até delinquentes.
Após anos de aperto, onde puderam manter o padrão de vida invejável de seu país mas não realizaram novos progressos, os assalariados alemães nem querem ouvir falar de sacrifícios.  Acham injusto. Apoiam medidas duríssimas em direção aos países vizinhos, que incluem fortes elevações na taxa de juros, que tornam toda recuperação ainda mais dolorosa e difícil.
O problema é que empurrar a Grécia em direção ao abismo não faz bem a ninguém. Nem aos cidadãos alemães,  que também acabarão sacrificados em caso de tragédia.
Como já descreveu o Premio Nobel Joseph Stiglitz, o capitalismo globalizado funciona pelas regras de um tipo peculiar de cassino financeiro, onde os lucros são privatizados, os prejuízos são sempre socializados — e os donos da casa nunca precisam pagar a conta.
Aí reside o irracionalismo da situação atual: todos sabem que a economia caminha em direção a um abismo financeiro, mas as autoridades capazes de tomar decisões que poderiam modificar o rumo não se dispõem a fazê-lo.
As linhas do pacote são claras. Pretende diminuir os salários, cortar os serviços públicos e aumentar impostos, entregando ao governo uma renda que será utilizada para fazer pagamentos aos credores. Alguns exemplos: até agora, todo cidadão que tinha um rendimento anual de 12 000 euros estava livre de pagar impostos. Agora, é preciso ganhar apenas 8 000 para ingressar nessa categoria. Outras taxas serão criadas. Os investimentos serão reduzidos.
A Grécia não irá sair da crise com tais medidas. O crescimento não irá voltar –não por aí.
Não se pretende isso, vamos combinar. A proposta é apertar o país para extrair cada centavo de toda riqueza disponível.
Quando todo sacrifício possível tiver sido feito, a Grécia será abandonada à própria sorte para quebrar ou salvar-se com imensa dificuldade.

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