14 de jun de 2011

Estudo denuncia desmatamento ilegal na cadeia do aço


Amália Safatle no Terra Magazine
Por conta da votação do Código Florestal, formou-se um debate limitado e polarizado entre a conservação ambiental e a agropecuária. Mas há muito mais partes envolvidas nessa complexa equação que é a do uso e ocupação do solo no Brasil.
Uma pesquisa a ser divulgada no dia 22 de junho, por exemplo, joga luz em uma outra importante cadeia produtiva, a da siderurgia, que depende da atividade florestal e deveria seguir as regras de produção legal e sustentável. Mas, segundo o trabalho do Observatório Social, coordenado pelo jornalista Marques Casara, em algumas siderúrgicas do pólo de Carajás, grandes exportadoras de ferro gusa usam carvão obtido por desmatamento ilegal e do trabalho escravo nos processos produtivos. O trabalho cita nomes de grandes siderúrgicas exportadoras, como Cosipar, Sidepar, Margusa e Gusa Nordeste. "A prática contamina toda a cadeia produtiva do aço e chega a montadoras de veículos, fabricantes de eletrodomésticos, de aviões e de computadores", antecipa comunicado enviado à imprensa.
Levantamento do Instituto Datafolha, realizado entre os dias 3 e 7 de junho, revelou que 85% dos brasileiros acima de 16 anos defendem que a reforma do Código Florestal deveria priorizar a preservação das florestas e rios mesmo que, em alguns casos, isso prejudique a produção agropecuária. O estudo do Observatório Social mostra que esta não é a única responsável pelo desmatamento e o brasileiro precisa estar a atento a outros players desse jogo.
Na ponta, o consumidor ajuda involuntariamente a puxar um fio que envolve carvoarias clandestinas, fraude de documentos, corrupção no sistema de fiscalização e esquemas de "lavagem de madeira" - que usam assentamentos rurais voltados à agricultura familiar, plantações de eucalipto e até mesmo as tradicionais quebradeiras de coco de babaçu.
A pesquisa do Observatório Social - que começou em Nova Ipixuna (PA), onde foram assassinados José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo - detalha como operam grupos criminosos do qual fazem parte empresários, políticos e servidores do governo do Pará.
Em alguns casos, o carvão ilegal sustenta mais da metade de toda a produção. A fraude se dá por meio da compra do produto "esquentado" por mecanismos de fraude diretamente ligados à corrupção nos órgãos de fiscalização. A pesquisa revela ainda diversos casos nos quais o carvão é entregue sem documento ou com o uso de documentos forjados, com a conivência de governos municipais e estaduais.

Segundo o comunicado, a pesquisa mostra o passo a passo dos esquemas de "esquentamento". No caso das quebradeiras de coco de babaçu, como a casca do coco não precisa de guia florestal para ser transportada até as carvoarias, as siderúrgicas supervalorizam a quantidade de carvão produzida com base nessa matéria-prima. Os pesquisadores estiveram nos locais onde as quebradeiras trabalham e elas confirmam o problema, que também está sendo investigado pelo Ibama no Maranhão e no Pará.
Ocorre o mesmo problema com o eucalipto: como ele não requer guia florestal, abre-se a possibilidade de atuação na ilegalidade usando a sua produção como fachada. O estudo será lançado em São Paulo, dia 22, às 9 horas, na Rua São Bento, 413, Centro.

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