3 de nov. de 2010

2014 é o fantasma necessário da oposição

Da coluna de Paulo Moreira Leite na Época


Arrisco a dizer que, sob certo aspecto, do ponto de vista de Dilma Rousseff, o pior já passou.
Ela nunca fez campanha, nunca pediu votos, nunca foi obrigada a exercitar-se no difícil exercício de ganhar simpatias do eleitorado. Era aí, na campanha eleitoral,  que corria os maiores riscos.
Dilma sempre viveu em gabinetes, fez projetos, dirigiu equipes e definiu prioridades. Tem capacidade para discutir idéias, cultivou o hábito de fazer discussões acaloradas e gosta de testar argumentos.
Vitoriosa nas urnas, é disso que vai se ocupar, daqui para a frente. E é este desempenho que irá definir o que vai acontecer em 2014, o último ano do mandato para o qual recebeu 55 milhões de votos.
É claro que o grande desafio — fazer um bom governo e cumprir os compromissos de campanha — começa em 1 de janeiro.
O que quero dizer é que ela tem mais preparo para governar do que para ganhar votos. Está mais à vontade nessas tarefas. Assisti a suas entrevistas depois da vitória. A tensão diminuiu, as explicações surgem com mais facilidade, as idéias aparecem com mais clareza.
Lula foi categórico, hoje, quando rejeitou qualquer hipótese de retorno ao Planalto em 2014.
Apesar disso, duvido que seus esclarecimentos tenham sido suficientes para convencer comentaristas, observadores e adversários do governo a parar de encarar o governo Dilma Rousseff como um simples intervalo histórico — antes de um eventual retorno de Lula ao palácio. Isso porque 2014 tornou-se um fantasma necessário para a oposição.

Minha previsão é que o mundo político irá discutir o assunto por muito tempo ainda, numa repetição do que ocorreu com a emenda do terceiro mandato.
O problema da visão sobre 2014 é que ela representa a continuidade do mesmo erro que a oposição cometeu em 2010, numa campanha onde acabou derrotada por 12 mihões de votos.
Num esforço para diminuir a candidatura de Dilma, minimizar eventuais competências e a experiência acumulada por quem passou oito anos como ministra, a oposição insistiu em tratá-la como um simples ventríloquo do presidente, incapaz de formular respostas políticas nem oferecer explicações técnicas com  conhecimento de causa.
Nessa visão, Dilma não era uma aliada política do presidente. Era uma incapaz que Lula escalou para desempenhar o papel de marionete. Não era protegida. Era tutelada. Não tinha opinião própria nem capacidade de raciocínio nem qualquer passagem aproveitável em sua biografia. Até mesmo sua atuação na resistênica à ditadura, digna de respeito moral por parte de qualquer democrata sério, foi criminalizada.
Dizia-se que Dilma foi escolhida por Lula para ser mantida eternamente na dependência de seu padrinho, que, dessa forma, poderia tocar o governo por controle remoto.
Em resumo: pelo raciocínio da oposição, Dilma era uma candidata tão ruim, mas tão ruim, que acabaria rejeitada pelos eleitores de Lula, que iriam correr nos braços do candidato de oposição para continuar a obra do presidente mais popular da história.
Residia aí, na verdade, a esperança de vitória de José Serra e sua “o Brasil pode mais.”
A conversa se repete agora. Para a oposição, 2014 tornou-se o fantasma necessário.  Aposta-se que Dilma fará um governo tão  ruim, mas tão ruim, que nada mais lhe restará senão chamar Lula de volta em 2014.
Conforme este raciocínio, nada do que Dilma disser ou fizer como presidente tem valor de face nem deve ser examinado em seus méritos próprios. Tudo é um aperitivo para o retorno de Lula, inevitável como a chegada do dia depois da noite. Mas será que é isso mesmo?
Ninguém sabe. Se política é como nuvem, imagine o que são quatro anos neste universo de luz e sombra, acertos e traições, alianças e rupturas.
Dilma nem tomou posse. Tudo pode acontecer, não é mesmo?

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