12 de nov de 2010

O "padre Cangaceiro"


Edmilson Lopes Júnior do Terra Magazine
De Natal (RN)
Pedro Neefs. O nome inspira respeito, admiração e saudade em toda a região oeste do Rio Grande do Norte. Holandês, pertencente à Congregação do Sagrado Coração de Jesus, Padre Pedro como é conhecido, tem uma trajetória ligada ao semi-árido nordestino. Nas várzeas, serras, tabuleiros e serrotes que modulam as paisagens dos municípios das paróquias que assumiu, ele foi muito mais do que um condutor dos fiéis de sua igreja. Foi um educador. Ou, como talvez ele preferisse, um "animador".
A primeira paróquia que o holandês assumiu na região, em meados da década de 1960, foi a de Apodi. Aí, durante quatro anos, ele fez a diferença. Nunca antes, nesse rincão do semi-árido, um religioso tinha rompido as fronteiras invisíveis que separavam o mundo da autoridade religiosa daquele no qual viviam os membros do seu rebanho. Tanto se envolveu com a vida do povo, que criou uma instituição, uma fundação, objetivando angariar recursos internacionais para promover o desenvolvimento local. Não tardou a ser alvo da desconfiança dos "donos do poder". E, por isso, terminou indo para outra freguesia. Mas, ainda hoje, é lembrado carinhosamente pelas pessoas mais velhas do lugar. Tornou-se, como é comum ocorrer com figuras como ele, um personagem sobre o qual se constroem narrativas. Muitas, verdadeiras. Outras, aumentadas.

Um velho agricultor da Várzea do Apodi lembra, com vivacidade e detalhes, um acontecimento que teria testemunhado. Em um dia de domingo, aí pelo meio da manhã. Os fiéis, no pátio da igreja, esperavam o início da missa. Padre Pedro, como de costume, parecia mais interessado em ouvir as pessoas. Eis que, correndo, aproxima-se do padre um bêbado, perseguido por um policial local, tido como valente e muito temido pela população local. O bêbado se achega ao padre e este o protege com o corpo. O policial, como se fosse possível ignorar o homenzarrão branco postado à sua frente, tenta puxar o bêbado. Eis que o padre empurra com todas as suas forças o policial. Este, surpreso, cambaleia. Refeito, volta-se ameaçador para o padre, ordenando que lhe "entregue" o "desordeiro". O padre, vermelho de cólera, expulsa, aos gritos e empurrões, o ex-valente.
- Padre Pedro era um cangaceiro - conclui o meu interlocutor.
As autoridades eclesiásticas deviam achar o mesmo. Afinal, para as missas do padre holandês, acorriam à procura de batismo, os filhos e as filhas de casais não reconhecidos pela Igreja, prostitutas e todos os proscritos. Quando admoestado por colegas, nos encontros de religiosos na Diocese de Mossoró, o Padre Pedro, respondia:
- E eu vou negar o batismo para uma pessoa? Jesus faria isso?
Mas Padre Pedro nunca quis o reconhecimento como líder. Sempre quis que as pessoas aprendessem por si mesmas. Sua tarefa seria a de mostrar que sonhos poderiam se tornar realidade, desde que as pessoas acreditassem nelas próprias. Por isso, investiu sempre em educação. Ou em iniciativas educativas.
No município de Campo Grande, onde foi pároco por mais de três décadas, criou instituições e estimulou redes sociais, muito antes que o sintagma "rede social" se tornasse sedutor para as ciências sociais e para a mídia. O que ele queria era que as pessoas pudessem mobilizar os recursos (materiais e humanos) de que dispunham. Assim, semeou experiências coletivas de produção e comercialização de artesanato e produtos agrícolas. Durante anos investiu tempo e recursos angariados na Europa para tornar viável o trabalho de artesãs da cidade. Esse trabalho foi a resposta que ele tentou construir para fazer com que as mulheres se tornassem menos dependentes diante dos seus maridos. Era também uma forma de tornar as pessoas menos vulneráveis diante da seca (esse projeto foi iniciado durante a grande seca de 1977 a 1983).
Em um tempo no qual o cientista político Roberto Putnam ainda não havia cunhado o termo "capital social" para designar aqueles intangíveis recursos acumulados pelos laços de confiança recíproca e pela associação não-hierárquica, Padre Pedro, no tórrido território do sertão potiguar, demonstrava que era possível, sim, semear capital social.
Nem todas as iniciativas do Padre Pedro foram imediatamente exitosas. A caatinga nordestina não é exatamente um terreno fértil para organizações não-verticalizadas. Mas a sua prática fez diferença. Semeando a confiança das pessoas nelas mesmas.
Mas a relação de Padre Pedro com o sertão não foi de mão única. A dedicação às pessoas e coisas do sertão lhe moldou. Ele se tornou um estudioso do semi-árido. Poucos cientistas que conheço sabem tanto dos processos ambientais da caatinga quanto o velho padre. E esse conhecimento, guiado pelo amor, tornou-o, como diria o poeta, um homem "crescido de coração". Não é pouco para alguém que, quando criança, foi testemunha dos horrores da guerra na Europa.
As últimas notícias que soube do "Padre Cangaceiro", como o apelidou e ficou repetindo, mais para si mesmo do que para mim, aquele velho camponês de Apodi, dão conta de que ele se encontra enfermo em Recife. Não pode mais ir ao sertão, encerrado em sua cama, mas o sertão, disse-me uma amiga em comum que o visita mensalmente, ainda floresce nas paisagens do seu coração.
Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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