1 de nov de 2010

Saber aceitar a derrota

Por Ricardo Setti

Achei chochas, formais, secas — e, portanto, vazias –, as manifestações que trocaram entre si publicamente, na noite passada, os dois candidatos à Presidência, a presidente eleita Dilma Rousseff e o candidato derrotado, o tucano José Serra.
Ah, como eu gostaria de ver, um dia, “neste país”, o que acontece nos países civilizados.
Fico só num exemplo marcante: a reação do candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, senador John McCain, do Arizona, quando ficou clara que a vitória nas eleições de 2008 caberia ao então senador democrata por Illinois Barack Obama.
McCain, conservador, filho e neto de almirantes de quatro estrelas, ex-piloto de combate da Marinha americana durante a guerra do Vietnã que teve seu caça-bombardeiro abatido em 1967 perto de Hanói, no então Vietnã do Norte, foi capturado e gramou oito anos de prisão e torturas — um durão de almanaque, portanto — fez uma leal, mas dura campanha contra Obama.
Opôs-se ao adversário em praticamente tudo: a estratégia de Obama para as guerras do Iraque e do Afeganistão, a criação de um seguro-saúde estatal, o programa sobre mudanças climáticas, a questão dos suspeitos de terrorismo presos na base militar de Guantánamo, em Cuba… A lista é longa.
Na noite de 4 de novembro de 2008, porém, quando ficou claro que a maioria do eleitorado americano optara pela renovação que Obama significava — 69,4 milhões de votos (52,9%) contra 59,9 milhões (45,7%) –, McCain, o rival implacável, proferiu a célebre frase:
– Até agora, ele era meu adversário. Agora, ele é meu presidente.
Vejam bem, ele não reconheceu simplesmente a vitória do oponente, nem disse que a partir daquele momento ele era o “presidente dos Estados Unidos”. A expressão foi: “Ele agora é meu presidente”.
Quando atingiremos esse nível de civilidade e de espírito democrático?

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