5 de nov de 2010

A obra de Lobato tem contornos racistas?

Por Paulo Moreira Leite na Época

Lobato, Emília e a banalidade do mal

Queria agradecer ao Conselho Nacional de Educação pela oportunidade de
pensar Monteiro Lobato mais uma vez.

Vou confessar uma coisa. Não lembro a data, não posso dizer a circunstância exata mas aqueles trechos de Caçadas de Pedrinho que se tornaram alvo de
discussão em função de uma decisão do Conselho Nacional de Educação sobre o conteúdo racista de determinadas fala de Emília, a boneca de pano, estavam adormecidos em minha memória durante décadas.

Eu era criança e tinha aprendido, naquele Brasil dos anos 50, que ser racista não era só errado. Era inaceitável, porque imoral. Meu pai e minha mãe, que eram cidadãos conscientes, socialistas, ocupados em dar uma formação democrática aos filhos, me falavam sobre estes e outros assuntos sérios.
Eu não fazia idéia, mas foi naquela época que racismo começou a ser considerado crime no Brasil, em função da lei Afonso Arinos. Até então, nada.
Eu adorava Lobato, achava aqueles personagens maravilhosos, ficava envolvido com suas histórias — mas as frases agressivas de Emília me deixaram chocado e traumatizado. Eu morria de pena de tia Anastácia. Em minha família nós tivemos uma certa Nhantoninha, que nascera escrava, ficara em casa de tias do interior — e morreu ali, entre elas, cuidada e, até onde posso me lembrar, querida.
Apesar da preocupações de meus pais com o racismo, numa visão que não deveria ser apenas deles, mas refletia um debate que começava a ocorrer até na Universidade de São Paulo, eu vivia num país onde o racismo se praticava às escondidas, como um disfarce. Nunca poderei esquecer no dia em que um colega negro apareceu em casa, numa festa. Seu apelido na escola pública onde ambos estudávamos era Branquinho. Isso já queria dizer alguma coisa. A reação familiar não foi igual às outras vezes. Ninguém falou nada. Mas havia uma certa tensão. Meu colega nunca mais voltou. Sem melodrama, tenho a impressão de que ele era um habitual de primeiras e últimas vezes.

Na visita de Branquinho, eu recebi nossa lição número 1 sobre a hipocrisia nacional. Tive outras. Eu também aprendi sobre os crimes contra judeus na Segunda Guerra Mundial. O assunto ganhou importância quando Eichmann foi preso e julgado em Jerusalém, assunto não saiu dos jornais por um tempo. Em minha casa, lia-se dois jornais por dia. Em certa época, meu pai aumentou a cota para três. Resumindo, ele  achava que TV nos escravizava e que os jornais nos fazia emancipados.
Eu não sabia que o julgamento de Eichman iria inspirar Anna Harendt a escrever um dos livros fundamentais de qualquer época nem a cunhar um dos diagnósticos básicos sobre ditaduras, aquele que se refere à “banalidade do mal.”
Mas já ouvia — em conversas em tom de susurro — que os judeus não gostavam de casar com quem não era judeu. Eram frases ditas com ressentimento, uma certa mágoa.
Levei décadas e muitas viagens ao exterior, inclusive uma prolongada residência na França, para entender que a banalidade do mal equivale a hipocrisia. Essa foi a lição definitiva da minha vida e só lamento que nem sempre tenha sido capaz de entendê-la.
A hipocrisia não é uma idéia, nem uma opção. É uma atitude de vida. Você enxerga o que é errado mas finge que não o vê.  Simula concordar do fundo do coração com uma idéia, uma proposição, ou mesmo uma decisão em seu local de trabalho ou numa roda de amigos — mas só está agindo de acordo com aquilo que é conveniente para sua vida profissional ou até para começar a namorar uma menina interessante. A base de tudo é tratar a consciência como moeda de troca.
A hipocrisia é aquela postura que nos faz fracos, que esconde nossa estranha capacidade de esconder convicções e valores pelo esforço de agradar e receber algum benefício. Quanto mais disfarçada, mais eficiente.
Digo isso para lembrar que ninguém vive em laboratórios de valores claros e atitudes luminosas. Como proclamava-se em 68, nem os maiores gênios habitam torres de marfim.
Cada época cobra seu preço sobre homens e mulheres, que estão condenados a conviver com preconceitos, dramas e atrasos. O próprio Monteiro Lobato chegou a reconhecer isso — a respeito de outro de seus personagens inesquecíveis, o Jeca Tatu. Como lembrou Sergio Leo em seu blogue, Lobato
chegou a desculpar-se perante os leitores em função do tratamento preconceituoso que dispensou ao caboclo Jeca Tatu, apontando-o como um tipo indolente e preguiçoso, incapaz de reagir diante das dificuldades da vida — em vez de perceber as condições materiais que tornavam a vida daqueles brasileiros simples do interior do país tão difíceis e tão precárias. Sim. Aquele escritor genial, que hoje é tratado como intocável, admitiu que poderia ser tocado, discutido, revisto.

Falando sobre outro gênio do século XX, Joseph Conrad, autor de Coração nas Trevas e outros livros inesquecíveis, o professor Edward Said, autor de
Orientalismo recorda um limite intransponível da atividade cultural. A visão é assim: se um homem genial é aquele que avança a consciência de seu tempo, seria uma utopia imaginar que é possível superar todos os limites — inclusive as barreiras definidas pelo conhecimento científico de determinada época. Homens comuns ou geniais, estamos todos submetidos às verdades estabelecidas de um lugar e de uma época.

Os grandes autores são aqueles que forçam barreiras, abrem janelas, escancaram portas — mas ninguém escancara todas as janelas e todas as portas de uma só vez.
Caçadas de Pedrinho foi escrito em 1933, um ano terrível na história da humanidade. Foi em 1933 que o Partido Nazista de Adolf Hitler conquistou o poder na Alemanha, na esperança de estabelecer um Reich que, embora não tenha durado 1000 anos, como pretendiam seus patronos, produziu tragédias e crimes equivalentes a muito mais do que isso. Entre outras coisas, era um período de idéias eugenistas, em que se procurava explicar o avanço e o progresso de povos e pessoas a partir de sua herança genética. O racismo não era considerado um crime — mas uma teoria científica. As idéias de hierarquia racial estavam no ar e não só na Alemanha mas no mundo inteiro.
Na mesma época, o grande Gilberto Freyre, um dos mais corajosos advogados da integração do negro na sociedade brasileira, que enxergava a democracia racial como meta a ser alcançada e não como realidade já vivida, produzia Casa Grande & Senzala. Ali deixou vários parágrafos em que se dedica a definir os predicados e incapacidades dos escravos trazido ao país em função de seu local de nascimento, chegando a associar o desenho do nariz, o formato da boca, a musculatura das pernas e até o tamanho da bunda para explicar a vocação de cada um.
Como Gilberto Freyre, Lobato era uma consciência e um produto de seu tempo. Foi assim que chegou a mim, naqueles dias infantis em que eu lia Caçadas de Pedrinho e não conseguia entender por que um escritor tão bom — apesar das sombrancelhas de taturana que lhe davam um ar maligno –,  tão recomendado por meus pais, que por sua vez eram cidadãos tão otimistas sobre o futuro da humanidade, era capaz de escrever palavras tão feias, que machucavam tanto Tia Nastácia, cujas descendentes, muito mais magrinhas, vieram morar em minha casa, para fazer almoços e jantares e cuidar da limpeza, atendendo pelo nome de Lola, Iraci, Carmen, Iracema e tantas outras, até que hoje estou sob cuidados de Neuza, que ainda por cima é branca.
Aquelas palavras de Emília doiam, porque já dava para saber que ela é que dizia o que Lobato pensava — e não Dona Benta, aquela vovó boazinha mas fora dos combates da vida real. Não sou nenhum estudioso de literatura mas, no contexto do Sitio do Picapau Amarelo, as palavras de Dona Benta são o contraponto necessário, a escada para o diálogo. A protagonista é Emília, porém. Suas palavras ficam na memória, reverberam. Por isso chocam, doem, abrem feridas.
Todos nós fomos educados com a noção de que o Brasil é um país onde o racismo não existe. Vejamos, então, a contradição: o mais popular autor infantil brasileiro autoriza a protagonista da obra a chamar uma empregada negra de macaca, chama seus lábios de beiços…num trabalho frequente de desumanização.

É claro que não se deve proibir a obra de Lobato e basta ler as recomendações do Conselho de Educação para perceber que este não é o espírito da decisão. Mas não dá para ser hipócrita e, banalizando o mal, fingir que é tudo normal e vamos em frente que não queremos ser chamados de autoritários por quem nunca levou essa noção de liberdade e democracia muito a sério, concorda?
Eichmann, que supervisionava o envio de judeus aos campos de concentração, dizia que não tinha nada de pessoal contra suas vítimas, não é mesmo? Por que ficar incomodado com uma negra na obra de Lobato?
Na verdade, o que se quer é orientar uma discussão delicada e necessária. Eu acho que este debate pode ser útil, além de corajoso.
Educação é cultura organizada e é para isso que existem escolas, professores, diretores, pedagogos, conselhos de Educação e até ministros.
A função de localizar um autor, situá-lo em seu tempo e trazer sua obra para nosso mundo exige preparo, conhecimento e capacidade intelectual. É um serviço ambicioso, delicado, mas necessário. Uma nota explicativa, como quer o Conselho, pode ser um bom estímulo à discussão.
Não podemos esquecer. No Brasil de 1933, os brasileiros negros não estudavam, não tinham trabalho fixo nem perspectiva na vida. Eram basicamente ex-escravos sem chegar a ser homens livres de fato.
Hoje, eles estão na sala de aula, entram na faculdade e, considerando seu ponto de partida, constituem o grupo que exibe o maior desempenho em matéria de melhoria social. Não dá para fingir que o racismo não existe. Nem para dizer que fiquem em silêncio quando dizem que se sentem constrangidos.
Lembrando aquele menino que lia Lobato num pequeno apartamento do Paraíso, em São Paulo, muito mais próximo do samba do Bixiga do que se admitia em casa, eu acho que o Brasil precisa desta redescoberta.
Lobato ficará maior e a cultura brasileira também.  Afinal, o criador de Emília nunca teve medo de chamar as coisas por seu nome.

Nenhum comentário:

Postar um comentário