1 de nov de 2010

Espaços incomunicaveis


Cláudio Lembo para o Terra Magazine
De São Paulo
Terminou a eleição presidencial de 2010. Restam lembranças. Amargas. O ingresso de temas da vida privada em espaço cívico foi lamentável. Os marqueteiros não tiveram nenhum pudor em agredir o melhor do Brasil.
Na ânsia de vencer, a temática religiosa avançou nos espaços da cidadania e, sem qualquer preocupação com os valores nacionais, buscou violar as melhores tradições da sociedade.
No cotidiano de nossas cidades - grandes, médias e pequenas - o respeito pelas convicções alheias é sempre preservado. Vai longe o tempo em que a casa do evangélico era apedrejada.
Ainda mais distante a época em que o povo do Livro era perseguido e censurado em seus rituais, quando das visitas dos inquisidores. Superaram-se os preconceitos contra os primeiros mascates, quase todos muçulmanos, cujos descendentes hoje erguem livremente suas mesquitas. O batuque e o atabaque marcam as práticas das religiões africanas e, em determinadas regiões, a presença das cerimônias indígenas se encontram presentes e ativas.
A perseguição por motivos religiosos ao outro é episódio superados em nossa História. Ainda mais esquecidos graças ao bom senso da cidadania que, ao invés de conflitos religiosos, buscou entender e estender a mão ao seu próximo.
Esta a grande vitória da nacionalidade. Uma só língua. Costumes comuns e tolerância religiosa exemplar. Há séculos não se rompiam estes valores da nacionalidade.
Bastou o risco da derrota eleitoral para que alguns marqueteiros irresponsáveis trouxessem para a prática política temas absolutamente superados e indevidos.
A campanha eleitoral terminou. O resultado das urnas encontra-se proclamado. Não pode, porém, ser esquecido o desserviço prestado por aqueles - nacionais ou estrangeiros - que lançaram o conflito religioso na arena política.
Mostraram total animosidade. Portaram-se como traficantes de violência. Procuraram disseminar o ódio onde existe a paz. O gesto de insanidade não pode ser esquecido.
Esta difícil etapa da vida política brasileira foi vencida. O uso da religião em contexto político foi rejeitado por todas as pessoas de bom senso. Em campanhas majoritárias, não cabe o uso desta maneira irresponsável de agir.
Na verdade - além das intervenções externas - o acontecimento se deve a ausência de efetivos comitês eleitorais nos partidos políticos. O candidato faz o que quer e, em sua ânsia de conquista, age sem limites. A vaidade e o egocentrismo não podem conviver com o espaço político. Este não pertence a este ou aquele figurante. É cenário da cidadania como um todo.
Terminou a apuração. Guarde cada eleitor, no âmago de sua consciência, tudo o que assistiu e ouviu durante a última campanha. Recolha as boas mensagens - não foram muitas - e registre as insinuações malévolas em suas consciências. Um dia, novamente, poderão ser cobradas.
A lembrança dos maus episódios, contudo, é um dever cívico. A recordação da importância da liberdade de consciência individual é ato obrigatório. Quiseram invadir o sagrado espaço da cidadania.
Foram vencidos. Os brasileiros repudiaram violações às suas convicções e princípios. Espera-se que os episódios não se repitam. A cada um seu espaço na sociedade.
Já vai longe o tempo em que a espada e o sagrado se confundiam.

Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

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