1 de nov de 2010

E Agora?

Por Paulo Moreira Leite

A conquista de um terceiro mandato consecutivo por qualquer força política
representa uma oportunidade nada desprezível de mudanças na história de um país.
Getúlio Vargas governou o Brasil durante quinze anos consecutivos, entre 1930 e 1945, e ajudou a construir a maior economia industrial do hemisfério Sul. Nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt redefiniu o perfil de seu país ao passar três mandatos e meio na Casa Branca.
É óbvio que ninguém precisa comparar Dilma Rousseff a tais personagens. Seria absurdo — ao menos pelo que se conhece hoje. Mas essas lembranças ajudam a refletir sobre o que estará em jogo em seu mandato.
Dilma poderá ou não consolidar mudanças positivas produzidas no governo Lula. Poderá ou não aproveitar oportunidades que a conjuntura internacional irá oferecer nos próximos anos. E terá, ou não, capacidade de enfrentar crises e dificuldades inevitáveis no cotidiano de qualquer governo.

O governo tem uma agenda positiva pela frente. As Olimpíadas e a Copa do Mundo representam boas oportunidades de investimento em obras para infraestrutura. O Pré-Sal representa, sim, uma chance de enriquecimento que pode trazer benefícios para o país. O mercado interno encontra-se num bom momento e os investimentos internacionais produtivos não páram de desembarcar.
Mas o sucesso do governo Dilma irá depender de uma conjuntura apenas mas também de a sua capacidade para oferecer respostas adequadas às questões que surgem. No início da campanha José Serra fez uma observação interessada mas correta. Disse que não existe governo na garupa. É assim mesmo. Ninguém governa o país que recebeu. Todo mundo é obrigado a construir a própria administração dia após dia, no confronto de estímulos, pressões e contradições de origem variada e forma diversa.
Dilma receberá um Congresso menos complicado do que Lula no primeiro
mandato. O senado não é mais oposicionista. Considerando vagas já abertas,
outras que devem surgir em função de novas aposentadorias e afastamentos, ela poderá fazer quatro nomeações para o Supremo Tribunal Federal. Não é pouca coisa. Representa a oportunidade de promover uma mudança completa na relação de forças da principal corte do país.
O governo Dilma  terá de montar um governo compatível com as alianças que
permitiram sua vitória e precisará fazer força para não ser paralizada pela luta interna. Ela herdou uma dor de cabeça que pode se transformar em pesadelo, o caso Erenice Guerra. Também terá de conviver com um Partido dos Trabalhadores renascido como a maior legenda do Congresso, cuja única liderança real, hoje, é o presidente Lula, que não pode ir para o governo nem ter uma atuação política relevante demais sob o risco de criar constrangimentos diversos.
As chances de Dilma se encontram no mesmo universo que garantiu a sobrevivência e consagração de Lula — a economia. A capacidade de equacionar os dramas e dificuldades pela crise cambial, sem prejudicar o crescimento, será o primeiro desafio de seu governo

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