18 de fev de 2011

Genética e história no país de mestiços

Por Paulo Moreira Leite na Época

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais informa que a herança genética dos brasileiros tem uma forte componente européia. No Nordeste, essa herança seria de 60,6%. No Sul, de 77,7%. No Sudeste, ficaria num ponto intermediário.
A pesquisa foi feita pelo exame dos ancestrais de 934 brasileiros — número que não é o melhor exemplo estatístico — mas permite reforçar uma conclusão conhecida. Somos um país de mestiços, com uma história marcada pelo casamento — ou seria melhor falar acasalamento — de brancos, negros e índios.
A idéia por trás da mestiçagem também é conhecida. Consiste em dizer que somos um país onde funciona a democracia racial — e muitas pessoas terão dificuldade de entender o que há de enganoso nessa afirmação depois de ver os números acima.
Somos um país de mestiços, sim, mas é preciso analisar quem se misturou com quem. Também vale a pena conhecer as condições da mestiçagem para entender suas consequencias.
Num artigo que fez um certo barulho na época em que foi publicado, o psicanalista Contardo Calligaris registrou um aspecto pouco estudado da mistura brasileira.
O ponto é o seguinte: ao contrário do que se costuma imaginar, em tons idílicos e fraternos, a mistagem brasileira foi uma política informal de extermínio. Não era uma confraternização entre descedentens de portugueses, africanos e indígenas, onde homens e mulheres se conheciam e se casavam num ambiente de liberdade e igualdade.
Era uma  ação de mão única: os homens brancos se acasalavam com mulheres negras e indígenas, para seu prazer e também para procriação. Mas nem sempre reconheciam seus filhos. Quase nunca formavam famílias. Os filhos eram mestiços pela genética — mas sem pais conhecidos nem responsáveis. Eram marginalizados.
Essa é a situação que irá definir a história de tantos brasileiros.

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