24 de dez de 2010

Sarará Guarulhos

Marcelo Carneiro da Cunha no Terra Magazine
De São Paulo
Povo do meu Brasil, levou quinhentos anos, mas a coisa aconteceu, finalmente. Não sei se vocês perceberam, mas miscigenamos de vez esse reduto da branquidão nacional, os nossos bravos aeroportos. Todo mundo vem lendo sobre a nova classe média, a ascensão de tantos e tanto para a classe C, os milhões de passageiros que iriam viajar pela primeira vez de avião nesse ano, não é mesmo? Mas eu não tinha sentido o impacto dessa transformação radical na nossa forma de vermos a nós mesmos, até o último final de semana, quando cheguei a Guarulhos para mais uma viagem e ele estava completamente moreno, mulato, mameluco, pardo, sei lá como o IBGE chamaria. Eu chamaria de, finalmente, igual e para todos.
Porque os aeroportos o Brasil, se são administrativamente desmontados pela Infraero, pareciam ser socialmente administrados pela Apartheid, Inc. Povo, povão, esse que está aí lotando nossos check-ins e fazendo foto até da esteira de bagagem, entrava apenas para olhar avião saindo e chegando, levando madame e monsieur para Nova York, ou Paris, ou levando e trazendo homens e algumas mulheres de negócios, a trabalho.

E é isso que acabou, meus estimados leitores. Saravá! Porque democracia social no Brasil passa, necessariamente, por democratização racial, ou melhor, por um nivelamento da cor a partir de um tom que represente a média da nossa mistura, que é intensa. Algo excessivamente branco, preto ou de algum outro tom puro, no nosso país, é sintoma de minoria, independente do tamanho da minoria, porque o que nos define como nação é a nossa mestiçagem. Onde ela estiver presente e participante, estamos bem.
Por isso, enquanto o aeroporto lotava, e velhinhas em vestidos coloridos amassavam os meus pobres pés, eu sorria, estimados leitores. Era isso, eu pensava, era isso o que a gente vinha buscando a tanto tempo sem sucesso. Uns poucos anos de governo de um presidente identificado com essa cor foi o que bastou para a gente mergulhar nela desse jeito. Sem discursos, sem besteiras, mas com a simples presença de milhares e milhares de recém chegados à festa, que se mostram muito confortáveis no novo papel, e acho que Lula tem uma enorme participação nisso, e não exatamente por eventuais sucessos econômicos, mas pelo exemplo. Se ele pode, passa a pensar o Brasil mais claramente mestiço, então posso eu, podes tu, pode o rabo do tatu, e vamos nessa. E vieram.
Eu sempre discordei da visão de que o Brasil era um caso de insucesso. Como dizia Darcy Ribeiro, o Brasil era um caso enorme de sucesso de uma elite que resolveu que o país seria ótimo para poucos e péssimo para os demais, o que era ótimo, para os poucos.
Hoje ele passa a se transformar em outra coisa, e, quem ainda duvida, dê um pulinho até Guarulhos, desde que consiga chegar, claro, com o trânsito e a ausência de trens até lá com que somos presenteados pelo governo do Tucanistão. Lá está a maior prova, com os milhões de trabalhadores que vieram construir o Sudeste indo visitar a terrinha onde quer que ela esteja. E de avião, como qualquer cidadão do mundo, vasto mundo. E com a família inteira junto, que é assim que se viaja. Que beleza! E tudo vai mudar, e o maior sinal da mudança está na cor desse novo Brasil, minha gente.
Quando eu morava nos Estados Unidos, eles adoravam dizer que eles eram um caldeirão de raças. Já eu achava que eles pareciam mais uma sopa de wanton, sabem? Um caldo ralo onde flutuam bolinhos de carne que não chegam a se mesclar jamais. Já o Brasil sempre me pareceu uma sopa de feijão, tudo mais misturado e com a cor sendo a soma das partes dividida por elas. É assim que começamos a ser e viver.
Claro que ainda existe uma camada composta predominante por pessoas brancas. Mas o fato é que a mistura começa a invadir e a predominar, tanto pelos números quanto pelo acesso ao que existe, já que a maioria das coisas é de quem pode pagar por elas, e, hoje em dia, e no futuro, mais e mais vão poder.
Talvez esse seja o maior legado dessa curta e incrível Era Lula, que todos vivemos, mesmo que uns 7% não gostem. Talvez essa seja a parte mais interessante do futuro para onde todos estamos indo, via Guarulhos. Finalmente estamos todos lá, finalmente somos todos mulatos, e a farra é nossa.
Só quero ver agora o que a Danusa e o Bóris vão achar disso.
Um abraço a todos, e um próximo ano novo.

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