1 de dez de 2010

Pai dos pobres


Plínio de Arruda Sampaio para o Terra Magazine
Pai dos pobres e mãe dos ricos. Não pode ser outra a caracterização do governo Lula diante da informação estarrecedora de que o custo do programa Bolsa Família previsto no Orçamento de 2011 (R$ 13,4 bilhões) corresponde apenas a 4% do que os 150 mil brasileiros mais ricos têm aplicado na ciranda financeira (R$ 337 bilhões, segundo levantamento feito recentemente pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais - Anbima). Um punhado de milionários detém, disponíveis para investir e reinvestir, 96% mais dinheiro do que receberão os 40 milhões de brasileiros que dependem Bolsa Família para comprar algum alimento e enganar a fome.
Dados oficiais indicam também que 35% da população, além de se alimentar mal, passa fome aguda alguns dias por ano. Obviamente, um país que ostenta estas cifras não pode ser uma democracia, pois esta depende da existência de pessoas com um mínimo de independência.
Diz a propaganda oficial que o programa Bolsa Família contribui para criar nos beneficiários uma consciência de cidadania. Essa propaganda é mentirosa. Quem já teve oportunidade de conversar com essas pessoas, recebeu uma visão completamente distinta. A necessidade de recorrer ao benefício é vista por elas como uma humilhação, e o processo de comprovação dos requisitos exigidos para inscrição no programa uma verdadeira vexação.

O mais terrível é que nada disso seria necessário, num país de mais de 500 milhões de hectares de terras férteis, se houvesse uma distribuição menos regressiva da terra. Estatísticas do INCRA mostram que 1% dos proprietários rurais detêm mais de 40% das terras agricultáveis no Brasil. Infelizmente, o governo Lula não teve coragem de enfrentar a oposição do agronegócio e a imposição de cortes orçamentários feita pelo FMI. Preferiu o caminho demagógico do assistencialismo barato.
As classes ricas e médias precisam se conscientizar de que não haverá como transformar este país em uma verdadeira democracia sem proceder a uma drástica distribuição da riqueza e da renda.
Tendo em vista que não se pode esperar de segmentos sociais que sempre demonstraram ser absolutamente egoístas - e mesmo cruéis - em relação ao povo pobre o acordo de que possa haver uma verdadeira reforma agrária. Esta só sairá com base na pressão das massas populares. É aí que precisa concentrar-se o esforço da esquerda e de todos aqueles que amam o país.

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