23 de nov de 2011

Dois dedos na cara da banca

Por Clóvis Rossi na Folha

Por fim, duas personalidades do coração do establishment apontam o dedo para a banca, responsabilizando-a pelo que a presidente Dilma Rousseff chamaria de "malfeitos".
Começo por quem o fez em inglês, que repercute mais, ainda por cima tendo sido publicado pelo "Financial Times", que não é exatamente o porta-voz dos indignados ou simpático ao PSOL, por exemplo.
Em entrevista ao jornal britânico, Robert Jenkins acusou a banca de ser "intelectualmente desonesta e potencialmente danosa", por fazer o diabo para aguar a nova regulação do setor, determinada lá atrás pelo G20, como consequência da crise de 2008. Crise causada, é sempre bom lembrar nos tempos que correm, não porque os governos estavam excessivamente endividados mas porque o sistema financeiro se transformou em um cassino que faz apostas realmente daninhas, não apenas potencialmente.
Qualifiquemos Jenkins: ele é um dos 11 membros do Comitê de Política Financeira do Reino Unido, incumbido de proteger a estabilidade financeira. Antes, havia sido gerente de investimentos de uma instituição financeira, a F&C Asset Management.
Conhece, portanto, os dois lados do balcão. Conhece o suficiente para lamentar que "uma profissão que deveria se caracterizar pela integridade e a prudência, agora apoia uma estratégia de lobby que explora mal-entendidos e o medo".
Jenkins está se referindo à pressão dos bancos para escapar das novas regras de capital e liquidez, denominadas no jargão internacional de Basileia 3, por terem sido elaboradas nessa cidade suíça que abriga o BIS (Banco de Colocações Internacionais, o banco central dos bancos centrais).

Passemos agora ao dedo brasileiro dessa história, que explica o lobby e a mentira da banca, sob assinatura de outro nome de impecável credenciais pró-mercado e pró-establishment, o do professor Antonio Delfim Netto, em seu artigo desta quarta-feira para a Folha-papel.
Delfim refere-se, acima de tudo, à resistência da banca à regulação aprovada nos Estados Unidos, mas seu raciocínio aplica-se também ao esforço global do sistema financeiro contra os novos controles.
Diz Delfim que "James Dimon, o cínico e competente presidente do JP Morgan, não tem pudor em afirmar que o controle sugerido pela lei 'reduzirá o crescimento econômico' e deve ser considerado 'antiamericano porque coloca os EUA numa situação competitiva desvantajosa". Acrescenta, irônico: "Só se for em relação aos 'predadores europeus' que, ele sugere, continuarão com as mãos livres!".
O ex-deputado --conselheiro informal tanto de Lula como de Dilma-- lembra que "a American Bankers Association e o Institute of International Finance dão suporte pretensamente científico" à afirmação de Dimon. Segundo Delfim, o sistema financeiro gastou mais de US$ 90 milhões com "lobbiyng" em 2009; em 2010, mais do que US$ 100 milhões e, em 2011, até hoje, US$ 50 milhões.
Em seguida, Delfim destroi a mentira dos lobbies da banca, ao afirmar: "Felizmente, o BIS acaba de publicar um estudo tranquilizador produzido por representantes de bancos centrais de 15 países --o do BC [do Brasil] foi feito pelo competente Marcos Ribeiro de Castro, que desmonta completamente os argumentos do custoso 'lobby'".
Fecha assim: "O efeito da regulação será modestíssimo na taxa de crescimento (menos de 0,01% por ano durante os anos de sua implantação), mas produzirá substancial redução dos riscos de destruidoras crises financeiras".
Sei que regulação financeira não é um assunto tão emocionante quanto o gol de Adriano no domingo, mas é minha obrigação dizer que é bem mais relevante e vai muito além da contabilidade da banca. Trata-se de definir se o mundo, quando voltar a crescer, quer ser democrático, em que os poderes regularmente eleitos impõem os devidos controles à banca, ou se continuará sendo o vale-tudo que se viu em 2008/2009 e volta a se dar agora.
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

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