25 de abr de 2012

Profecias argentinas


Por Paulo Moreira Leite
As vezes eu acho que a Argentina virou um melodrama contemporâneo desde que Madonna fez Evita e cantou Dont Cry for Me, Argentina…
O filme é perfeitamente descartável e banal e sua melodia ajudou a consolidar o estereótipo de que os argentinos tornaram-se um país de infelicidade e decadência.
Quando Cristina Kirschner decidiu estatizar a YPF, foi a mesma reação. Pobres argentinos que irão perder investimentos, ficarão isolados do mundo, às voltas com seus políticos populistas, malandros e incompetentes. Vamos chorar por eles…
Pois é. Há uma década a Argentina cresce a taxas chinesas. Seu crescimento médio equivale ao dobro do que o Brasil obteve sob Lula que, por sua vez, era o dobro do que se obtinha com FHC.  Pobres argentinos, não?
Os credores denunciaram Nestor Kirschner como um demagogo mas ele reestruturou a dívida externa, mudou o cambio e o hoje o pais acumula superávits comerciais que dão inveja a muita gente.
Parece que em torno da YPF não há conflitos de interesses materiais, nem pontos de vista diferentes,  nem disputa por renda, por ganhos e perdas, que podem levar a reações diferentes para um lado e para outro.
É como se houvesse um grande consenso mundial que apenas os desenturmados e desorientados não consegue alcançar.  O mundo desabou em 2008 e ainda não ficou de pé. Os políticos responsáveis pela crise estão sendo depostos pelo eleitorado, um a um. A Economist já avisou seus leitores que o capitalismo de estado (ou seja o nome que se queira dar a este fenômeno) tem gerado crescimentos mais elevados nos emergentes mas tem gente que ainda não entendeu.
Ninguém pergunta por que os espanhóis – que eram donos da YPF – deixaram os investimentos cair ao longo da década, obrigando o país a se tornar importador de petróleo.
Será que eles têm o cofre cheio para investir o que seria preciso, com o desemprego em mais de 20% e uma pobreza tal que já tem cidade legalizando o plantio de maconha para tentar diminuir o desemprego?

Ou por que mesmo a oposição argentina, que apoiou a privatização da empresa, se dispõe a sustentar a estatização.
Em artigo publicado esta semana na Folha de S. Paulo, o professor Bresser Pereira questiona este senso comum. Bresser mostra que a economia mudou mas a maioria dos críticos não consegue entender a nova melodia:
“o desenvolvimento da Argentina depende dos capitais internacionais, ou são os donos desses capitais que não se conformam quando um país defende seus interesses? E, no caso da indústria petroleira, é razoável que o Estado tenha o controle da principal empresa, ou deve deixar tudo sob o controle de multinacionais?”
Bresser Pereira diz ainda:
“Não faz sentido deixar sob controle de empresa estrangeira um setor estratégico para o desenvolvimento do país como é o petróleo, especialmente quando essa empresa, em vez de reinvestir seus lucros e aumentar a produção, os remetia para a matriz espanhola.”
O  professor coloca uma luz importante quando recorda a situação do mundo atual, que jogou de cabeça para baixo aquilo que outro iconoclasta – o professor John Kenneth Galbraith – chamava de “sabedoria convencional.” A maioria dos críticos da decisão argentina diz que o país irá perder com a medida, pois ela afastará os investimentos externos. O problema desse argumento é que os investimentos externos não estão em falta nos países emergentes – estão sobrando.
“Um país como a Argentina, que tem doença holandesa moderada (como a brasileira) não precisa, por definição, de capitais estrangeiros.”.
Segundo o professor, “os grandes interessados nos investimentos diretos em países em desenvolvimento são as próprias empresas multinacionais. São elas que capturam os mercados internos desses países sem oferecer em contrapartida seus próprios mercados internos.”
Vamos combinar que o debate é mais interessante do que uma música melodramática…

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